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Promessa do Espírito Santo

Parece, pelo menos nos últimos trimestres, que nossa comunidade está perdendo muito sua paixão pelo Batismo no Espírito Santo. Se esse é o caso, nós somos tentados a culpar a crescente influência de uma cultura sensorial e materialista. Mas talvez nós, os responsáveis por pregar, ensinar e pastorear as pessoas, temos nos tornado teologicamente deficientes por um lado, e possivelmente intimidados por teologias emergentes e não pentecostais por outro lado. Será que estamos planejando, cuidadosamente e intencionalmente, que pregações, cultos e outros ministérios perpetuem o batismo no Espírito Santo e uma vida plena no Espírito?

Este é o primeiro artigo da série em que eu e Tim Enloe iremos apresentar o melhor da atual reflexão teológica pentecostal, que esclarece e amplia os fundamentos bíblicos de nossa história e crenças, bem como sugestões práticas para fortalecer a pregação e a formação espiritual dentro das igrejas locais. Neste artigo, eu examino brevemente importantes facetas do ensino do Antigo Testamento que fundamentam a prática e a doutrina pentecostal na revelação bíblica como todo.

A Promessa no Antigo Testamento

O que Deus realizou no Novo testamento, Ele começou no Antigo Testamento. O Antigo Testamento foi a primeira Bíblia da Igreja Primitiva. A Igreja Primitiva usava o Antigo Testamento para fundamentar seu entendimento sobre o nascimento, o ministério, a morte e a ressurreição de Jesus. O Antigo Testamento também introduz o trabalho do Espírito de Deus, de quem a identidade e funções aparecem gradativamente através das épocas e vem a ser concretizadas no Novo Testamento. Seria difícil entender algumas passagens do Novo Testamento se não fosse à luz que o Antigo Testamento joga sobre elas. [1]

O Novo Testamento identifica o Espírito Santo como o “Espírito Santo prometido”. Antes da sua ascensão, Jesus disse “Eu lhes envio a promessa de meu Pai” (Lucas 24.49) [2].  Pedro escolheu cuidadosamente este assunto em seu inspirado sermão no dia de Pentecoste, “Exaltado à direita de Deus, Ele recebeu do Pai o Espírito Santo prometido e derramou o que vocês agora veem e ouvem” (Atos 2.33). Paulo falou sobre “a promessa do Espírito” (Gálatas 3.14) e sobre “o Espirito Santo da promessa” (Efésios 1.13). Enquanto Jesus falava nos evangelhos do Pai como aquele que dá o Espírito Santo (Lucas 11.12; João 14.16), o uso do profeta Joel por Pedro indica que Deus primeiro deu a promessa do Espírito através das importantes profecias do Antigo Testamento (Joel 2.28,29; ver também Isaías 32.15; 44.3-5; Ezequiel 11.19,20; 36.26,27; 37.1-14; 39.29; Zacarias 12.10).

O conhecimento do trabalho do Espírito na economia antiga contribui para nosso entendimento de seu trabalho nos Evangelhos, em Atos e nas epístolas. Este artigo irá focar em várias narrativas e profecias chave do Antigo Testamento que fornecem um notável guia de seu trabalho na era do Novo Testamento.

Moisés e os anciãos

Moisés foi o profeta do Antigo Testamento por excelência. Seus milagres durante as pragas no Egito e aqueles manifestados durante a peregrinação no deserto por Israel atestam o jeito extraordinário que o Espírito de Deus atuava através dele. Contudo, o papel do Espirito em seu ministério não é revelado no Pentateuco até Números 11. Aqui, as constantes murmuração e reclamação do povo esgotaram a vitalidade e o entusiasmo de Moisés. Numa linguagem atual, ele estava esgotado. Enfraquecido e deprimido, ele clamou ao Senhor, “Não posso levar todo esse povo sozinho; essa responsabilidade é grande demais para mim. Se é assim que vais me tratar, mata-me agora mesmo; se te agradas de mim, não me deixes ver a minha própria ruína” (Números 11.14,15: ARA).

O Senhor arranjou uma solução surpreendente e inesperada, “Ajunta-me setenta homens dos anciãos de Israel. […] tirarei do Espírito que está sobre ti e O porei sobre eles” (Números 11.16,17: ARA). O resultado pretendido?  “Contigo levarão a carga do povo, para que não a leves tu somente” (vs. 17). Entendemos que a excepcional sabedoria e o poder de Moisés foram mediados através dele pelo Espírito de Deus. Moisés foi um portador preeminente do Espírito.

Deus está mostrando que o mesmo Espírito que capacitava e estava sobre Moisés é inesgotável e também está disponível para ser colocado sobre um grupo de líderes, outros além de Moisés. E isso, sem diminuir o prestígio e o poder de Moisés (assumimos que Arão e Miriã, ambos profetas, também eram movidos pelo Espírito).

Deus é específico sobre o trabalho do Espírito que é atuar sobre a vida daqueles 70 anciãos. “Contigo levarão a carga do povo, para que não a leves tu somente” (Números 11.17: ARA). O Espírito irá estimular e guiar as funções de liderança para um maior grau de efetividade e utilidade.

Algo mais ocorreu que, pela sua inclusão na narrativa, é importante na experiência dos anciãos. “Quando o Espírito repousou sobre eles, profetizaram; mas, depois, nunca mais” (Números 11.25: ARA). Os anciãos não foram chamados para serem profetas, nem atuaram, até onde sabemos, nesse ofício posteriormente. Assim, o Senhor escolheu usar uma notável experiência temporária de profecia como um sinal para confirmar que o Espírito veio sobre os anciãos. O sinal do discurso profético foi convincente a Moisés, aos anciãos, e outros que testemunharam o evento ou tiveram o evento relatado com segurança para eles. A experiência pública e tardia (providencialmente?) no acampamento de Eldade e Medade foi um testemunho à comunidade, uma antecipação do mini-Pentecoste (Números 11.26).

Saul e Davi

As falhas espirituais de Saul mancharam tanto a sua reputação que tendemos a negligenciar, ou possivelmente não levar em conta, o trabalho do Espírito nele inicialmente. O Senhor escolheu Saul para ser o primeiro rei de Israel, revelada a Sua vontade ao profeta Samuel, então ordenou que Samuel ungisse Saul como rei (1 Samuel 9.16; 10.1). O ato da unção foi símbolo da escolha de Deus e feito na direção de Deus, garantindo a vinda do Espírito em poder.

Após ungir Saul privadamente, Samuel deu-lhe três sinais para serem cumpridos. O último dos três era, “Você encontrará um grupo de profetas. […] O Espírito do Senhor se apossará de você, e com eles você profetizará, e será um novo homem. Assim que esses sinais se cumprirem, faça o que achar melhor, pois Deus está com você” (1 Samuel 10.5-7). A natureza e ordem dos eventos que se seguem são significantes. “Quando se virou para afastar-se de Samuel, Deus mudou o coração de Saul” (10.9). Mais tarde, quando Saul encontrou o grupo de profetas, “o Espírito de Deus se apossou dele, e ele profetizou no meio deles” (1 Samuel 10.10).

O historiador sagrado cuidadosamente descreve o trabalho de Deus em Saul como realizado em duas etapas seguidas. Primeiro, veio uma mudança de coração; segundo, o Espírito veio em visível manifestação de poder e de profecia, o que lembra os setenta anciãos.

Nem Saul, nem tampouco os anciãos foram chamados para serem reconhecidos como profetas. Mas em cada caso, a experiência temporária de profecia foi um sinal da vinda do Espírito, em poder, sobre eles para a realização de tarefas de liderança. Além disso, Saul passou uma clara experiência do Espírito, em duas etapas. Os pecados e a apostasia de Saul durante seu reinado de 40 anos não invalidava o fato de que Deus o escolheu para ser o primeiro rei de Israel e forneceu a necessária mudança de coração e poder miraculoso para liderar e livrar Israel.

As Escrituras também atestam outro marcante trabalho do Espírito na chamada de Davi. Samuel, na direção direta de Deus, “apanhou o chifre cheio de óleo e o [Davi] ungiu na presença dos seus irmãos, e, a partir daquele dia, o Espírito do Senhor apoderou-se de Davi” (1 Samuel 16.13). Ao contrário de Saul, a Bíblia não diz se Davi sofreu uma mudança de coração. Também, ao contrário de Saul, o Espírito veio sobre Davi desde aquele dia em diante. Assim, Davi, diferentemente de outros sacerdotes, profetas e reis no Antigo Testamento, tinha a presença do Espírito constantemente em sua vida.

Mesmo sendo um menino, Davi parece ter tido um relacionamento precoce e excepcional com Deus. Portanto, o Espírito, sem dúvida já trabalhando dentro dele, veio sobre ele de uma maneira tão visível e poderosa que não teve necessidade de reportar nenhuma mudança de coração. E a derrota de Golias – vindo logo em seguida na narrativa- demonstrou publicamente a sabedoria, a paixão e o poder do Espírito em Davi (1 Samuel 17). Vemos a continuidade e importância do Espírito na vida diária de Davi em sua oração após Natan o confrontou pelo seu adultério e assassinato: “Não me expulses da tua presença, nem tires de mim o teu Santo Espírito” (Salmos 51.11).

É evidente que o Espírito dotou Davi com um vasto espectro de habilidades – como guerreiro e líder militar, administrador, músico e cantor, poeta e profeta, arquiteto e construtor (ver 2 Samuel 23.2 ; 1 Crônicas 28.12,19). Davi é um dos maiores homens do Antigo Testamento, o prenúncio de nosso Senhor Jesus Cristo que é identificado como o “filho de Davi”. Saul e Davi, juntamente com Moisés e uma série de outros grandes nomes do Antigo Testamento, levantam-se na tradição de grandes líderes carismáticos de Israel, assim chamados pelo jeito em que o Espírito veio sobre eles em poder dinâmico.

Bezalel e Aoliabe

A primeira ação definitiva do Espírito sobre indivíduos registrada no Antigo Testamento é encontrada no livro de Êxodo. Ele está incluso na narrativa antes do relato de Moisés e os anciãos em Números 11. O contexto desse evento é a direção do Senhor a Moisés para construir o tabernáculo e seus utensílios conforme um plano exato (Êxodo 25.8,9). Mas Deus não seu somente a Moisés um modelo, Ele também providenciou pessoas cheias do Espírito para a construção e arte: “Eu escolhi Bezalel […] e o enchi do Espírito de Deus, dando-lhe destreza, habilidade e plena capacidade artística para desenhar e executar trabalhos em ouro, prata e bronze, para talhar e esculpir pedras para entalhar madeira e executar todo tipo de obra artesanal. Além disso, designei Aoliabe […] para auxiliá-lo” (Êxodo 31.2-6; ver também Êxodo 35.30-35).

Pela primeira vez, nós aprendemos que o Espírito criativo concede sabedoria e habilidade para pessoas específicas realizarem tarefas físicas e educativas facilitadoras do plano redentor de Deus. Nesse caso, os dons espirituais têm a ver com visão criativa, destreza e habilidades de ensino e liderança para poderem concretizar o que é dado por Deus. Não está muito distante este relato para com a discussão de Paulo sobre os conhecidos dons de serviço em Romanos 12.6-8 (por exemplo: serviço, ensino, encorajamento, contribuir segundo as necessidades de outros, liderança e mostrar misericórdia).

Jeremias, Ezequiel e Joel

Olhando para o futuro, o profeta Jeremias previu, “’Estão chegando os dias’, declara o Senhor, ‘quando farei uma nova aliança com a comunidade de Israel e com a comunidade de Judá. […] Porei a minha lei no íntimo deles e a escreverei nos seus corações […]’” (Jeremias 31.31-33). Jeremias previu uma profunda conversão que ainda viria para o povo da aliança de Deus. (Quando o escritor aos Hebreus cita essa profecia, como outros escritores do Novo Testamento, ele diz, “o Espírito Santo também nos testifica a este respeito” [Hebreus 10.15]).

Ezequiel falou em termos similares, mas conectou o trabalho soteriológico antecipado de Jeremias diretamente ao Espírito de Deus. “Darei a vocês um coração novo e porei um espírito novo em vocês; tirarei de vocês o coração de pedra e lhes darei um coração de carne. Porei o meu Espírito em vocês e os levarei a agirem segundo os meus decretos e obedecerem fielmente às minhas leis” (Ezequiel 36.26,27). Ao invés de enfatizar o poder carismático do Espírito, essas duas profecias focaram no poder soteriológico do Espírito.

No caso do profeta Joel, existe uma notável continuidade entre suas palavras e aquelas usadas por Moisés. Conscientemente ou não, Joel pegou o motivo profético encontrado na oração de Moisés quando ele soube que Eldade e Medade estavam profetizando no acampamento: “Quem dera todo o povo do Senhor fosse profeta e que o Senhor pusesse o seu Espírito sobre eles!” (Números 11.29). Olhando para o tempo de cumprimento, Joel proferiu estas palavras do Senhor, “E, depois disso, derramarei do meu Espírito sobre todos os povos. Os seus filhos e as suas filhas profetizarão, os velhos terão sonhos, os jovens terão visões. Até sobre os servos e as servas derramarei do meu Espírito naqueles dias” (Joel 2.28,29). Embora Joel certamente não estivesse indiferente sobre a mudança espiritual entre o povo da aliança, ele previu uma doação profética universal para eles. A ênfase desse texto crucial, o texto fundamental para o discurso profético inicial de Pedro para a nova aliança, é carismática – todo o povo de Deus está para se tornar profeta.

Provisão para o futuro

Essas notáveis características da pneumatologia do Antigo Testamento revela vários aspectos do trabalho do Espírito aparecem mais claro no Novo Testamento. Muitos pontos são particularmente importantes para esta série.
1.1  Nas narrativas do Antigo Testamento, o Espírito geralmente vem de modo poderoso e experimental, que nos referimos como carismático. O termo vem da palavra que Paulo usa geralmente para dons espirituais (charismata) e usualmente significa em discussões teológicas a presença supernatural e experimental da presença e trabalho do Espírito.

1.2  As narrativas também fornecem pistas do trabalho soteriológico do Espírito. Por soteriológico, referimo-nos à renovação espiritual e santificação, ou maturidade do povo de Deus.  Lembra-se do novo coração de Saul e a experiência de Davi a partir daquele dia, assim como sua preocupação de que o Espírito não fosse retirado dele por causa do seu pecado.

1.3  As promessas do Antigo Testamento sobre a obra do Espírito em tempos futuros incluem tanto referências carismáticas como soteriológicas do Espírito. Ezequiel conecta diretamente a experiência de salvação pessoal ao Espírito Santo. Joel, em contraste, traça nitidamente a obra carismática universal do Espírito conforme Ele derrama o dom de profecia sobre todo o povo de Deus.

1.4  Tanto nas narrativas históricas como nas promessas proféticas, os dotes carismáticos do Espírito mostram-se como eventos observáveis e experimentais, frequentemente acompanhados de uma característica elocução profética.


Edgar R. Lee é doutor em teologia sacra, decano emérito e professor no Seminário Teológico das Assembleias de Deus, em Springfield, Missouri . Também faz parte da comissão de pureza doutrinária do Concílio Geral das Assembleias de Deus dos Estados Unidos. O texto foi publicado originalmente na revista Enrichment Journal.

Tradução: Charles Souza

Retirado do site teologia Pentecostal – Gutierres Fernandes

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