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O legado do cristianismo

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Outro dia vi essa imagem no Facebook e quem a postou fazia insinuações sobre o fato do Brasil ser cristão (embora a imagem fale de ser religioso), e ser ignorante. O autor do post dizia: Será por isso?

Antes de mais nada, devo salientar que não é o fato de alguém ter religião ou não, acreditar em Deus ou ser ateu que distingue seu intelecto.

O Prêmio Nobel é o reconhecimento de maior prestígio dado a homens ou mulheres que, com seu trabalho, contribuíram para o bem e o progresso da humanidade. É, sem dúvida o prêmio mais cobiçado; entre seus laureados estão homens e mulheres, religiosos e ateus. Entre outros estão: Marie Curie, Albert Einstein, Madre Teresa e o Dalai Lama, só para citar alguns.

Uma rápida análise da lista dos agraciados com o Prêmio Nobel desde sua criação, em 1901, até hoje revela uma destacada participação judaica.  Entre as 850 personalidades , 180 são judeus; e a grande maioria deles, 157, atuam nas áreas científicas.

Não há dúvidas que uma das razões para essa significativa participação judaica é a importância que os judeus sempre atribuíram ao estudo e à erudição. O nível de reflexão e análise necessários para estudar o Talmud, que, em hebraico, significa literalmente “estudo” ou “aprendizado”. Gerações após gerações inteiramente dedicadas ao estudo dos textos judaicos resultaram em incontáveis êxitos nos estudos laicos, pois é preciso uma mente inquisitiva para fazer descobertas e ter sucesso em novas áreas do conhecimento. [1]

Nas últimas décadas, tem se tornado comum no mundo ocidental “malhar” o cristianismo. Intelectuais, acadêmicos, escritores e articulistas de renome costumam se referir à fé cristã de forma desairosa e depreciativa. Infelizmente, com frequência muitos críticos estão dentro das fileiras do próprio cristianismo. É considerado politicamente incorreto falar mal de outras religiões, como o islamismo, o budismo e o hinduísmo, que estão muito em voga na Europa e nas Américas, mas não se vê nenhum problema em condenar o movimento cristão. Alguns pensadores ateus, autores de livros campeões de vendas, têm defendido explicitamente a extinção pura e simples do cristianismo. Segundo afirmam, seria desejável que todas as religiões deixassem de existir, mas na realidade eles têm em mente antes de tudo a fé cristã, a tradição religiosa predominante no Ocidente.

Além de preconceituosa, essa atitude é profundamente injusta do ponto de vista histórico. Os próprios cristãos reconhecem que sua trajetória ao longo dos séculos não está isenta de dolorosos problemas. As cruzadas, o antissemitismo, a Inquisição, as guerras religiosas e a escravidão nas Américas são manchas tristes na experiência da igreja, falhas que os cristãos conscienciosos lamentam profundamente. É preciso lembrar esses fatos continuamente para que eles não voltem a se repetir. Todavia, as contribuições e os benefícios que o cristianismo legou ao mundo são muito mais marcantes e numerosos que os seus erros, como o estudo desapaixonado da história demonstra de maneira conclusiva. Alguns desses benefícios não foram generalizados nem contínuos, tendo ocorrido mais em algumas épocas e lugares do que em outras. [2]

Sei que o termo civilização ocidental é uma generalização, há inúmeras diferenças entre a cultura característica do sul e do norte da Itália, mais ainda entre as da Itália e a da Holanda.

Três pontos em comum unem as culturas que englobarei aqui como constituintes da civilização ocidental: situam-se na Europa, foram parte do Império Romano e adotaram em algum momento o catolicismo como religião oficial – sendo todas elas ainda hoje predominantemente ligadas à alguma corrente cristã.

Romênia, Iugoslávia, Bulgária, também fizeram parte do Império Romano, mas não entram neste grupo. Nenhum país que após o grande cisma do século XI ficou sob a influência da Igreja Ortodoxa teve importância no processo de construção deste legado –  a Grécia entra por sua contribuição antiga, é o berço da civilização europeia com seus filósofos, poetas e dramaturgos; mas já bem antes de seu período cristão tinha perdido irremediavelmente o bonde da história.

Outros cristãos Ortodoxos como Ucrânia e Rússia também não. Os protestantes Dinamarca e os escandinavos também; nenhum deles faz realmente parte do grupo que pretendo abordar.

A Polônia é um caso aberrante, uma nação católica que deu ao mundo Copérnico, uma importante contribuição cultural – mas também não lembro de outra.

Basicamente, ao me referir à civilização ocidental, estou falando da que permeou o território geográfico que cobre da Itália à Inglaterra, toda a faixa ocidental entre elas,  mais Áustria e uma parte da Alemanha. O cristianismo é um elemento comum a todas estas culturas – a despeito dos setecentos anos de invasão moura da península ibérica.

Comparada a uma civilização ideal – e este ideal é fluido, varia de um indivíduo pra outro – , a ocidental, com seu histórico de guerras, massacres e perseguições a minorias, sempre perderá feio. Mas comparemos esta civilização a outras que tiveram existências concreta e cronologicamente simultâneas, a civilização hindu ou a chinesa –  ambas também são termos genéricos para designar várias culturas heterogêneas e idiomas diversos que de alguma forma se conciliaram numa mesma área (na Índia se fala centenas de dialetos diferentes).

Estas outras civilizações, ao longo de toda a História, abarcaram populações numericamente superiores à englobada pela ocidental. Comparando a ocidental a elas, veremos que esta não sai mal na foto. As outras produziram massacres, guerras, déspotas da mesma forma. Mas, barbaridades a parte,  a ocidental produziu Tomás de Aquino, Dante, Michelângelo, Ticiano, Shakespeare, Rembrandt, Bach, Mozart, Leibniz… Que nomes as outras civilizações têm para comparar a estes?

Além do fato de não produzirem nomes de tal vulto como a ocidental, outras civilizações com outros enfoques religiosos também não se expandiram com a mesma habilidade. Por exemplo, a América está a meio caminho da Europa e da Ásia (aliás, pelo Estreito de Bering é bem mais próxima da Ásia). Mas quem chegou e colonizou o novo mundo foram os europeus. Nós brasileiros, assim como argentinos, norte-americanos, somos produto desta civilização. Assim também foi com a Austrália, muito mais próxima da Índia que da Inglaterra.

Não temos como saber o que teria sido do mundo ocidental sem o avanço do cristianismo, quanto tempo a Europa levaria para se reorganizar após a queda do Império romano se não houvesse a mão-de-obra qualificada da Igreja para assumir os cargos burocráticos. Mas esta é outra discussão.

Esta ênfase no cristianismo mostra que a Bíblia é uma das bases da nossa civilização ocidental. Para muitos ela é a palavra de Deus exposta, para outros um depósito de sabedoria compilada através de várias gerações. Para outros ainda, uma elaboração mitológica sem maior relevância que a mitologia grega ou egípcia – dos que compartilham esta visão falarei mais ao final.

Como todos sabem, os cristãos baseiam sua fé especificamente na dissidência judaica representada por Jesus, o Cristo. O calendário do mundo ocidental é dividido em antes e depois do seu nascimento. A História que conhecemos não divide a cronologia em antes/depois de Moisés; Sócrates; Alexandre, o Grande; Julio César. A História tomou como parâmetro Jesus, logo, seu nascimento é, sem dúvida, um fato altamente significante dentro dela.

Obs. Tanto Julio César quanto seu sobrinho-neto Otaviano Augusto conseguiram, em atos de auto-glorificação, inserir seus nomes no calendário ocidental, rebatizando em sua própria homenagem o sétimo e o oitavo mês do ano, nomes estes que usamos até hoje. Mas ainda assim, não se tornaram “o” parâmetro de medida.

Nos dias de hoje, não estamos num patamar de ideias e debates particularmente bom, mas temos este passado digno de nota. E este momento atual ruim se dá pela predominância de ideias alheias ao cristianismo, muitas antagônicas a ele – marxismo, positivismo, materialismo científico, o ideário politicamente correto – as quais passaram a predominar e moldar a mente da intelectualidade, algumas já há mais de um século.

Esta mesma sociedade que abraçou ideias muitas vezes perversas, está sempre pronta a apedrejar a Igreja quando um de seus representantes, em algum pronunciamento, não abraça as causas que certos segmentos desta sociedade acham que a Igreja deveria aceitar. Algumas destas posições reivindicadas até são dignas de um debate, outras são diametralmente opostas à doutrina cristã e, portanto, inconciliáveis com ela.[3]

A influência histórica
O cristianismo é a principal tradição cultural do mundo ocidental, o mais importante fator na formação histórica da Europa e das Américas. Assim sendo, a influência cristã permeia todos os aspectos da vida desses continentes e suas nações. Caso prevalecesse a tese dos autores que defendem a extinção do cristianismo, por uma questão de coerência vastas mudanças teriam de ser feitas na vida social desses povos. Por exemplo, o calendário teria de ser trocado por outro — a semana de sete dias, os termos “sábado” e “domingo” (“dia do Senhor”) e a contagem dos anos (como 2008) não mais fariam sentido, porque todos têm origem cristã ou judaico-cristã. Algumas das celebrações e festividades mais apreciadas pelas pessoas (Natal, Páscoa, Dia de Ação de Graças) teriam de ser eliminadas. Milhões de pessoas teriam de mudar seus nomes de origem cristã, inclusive muitos ateus. O mesmo aconteceria com um imenso número de designações de cidades, logradouros e pontos geográficos. Os idiomas, a música, o folclore, as tradições e outros elementos seriam profundamente afetados.

Mas existem questões mais importantes. Olhando-se para a história antiga e recente, percebe-se o enorme impacto humanizador e civilizador do cristianismo. Desde o início da era cristã, houve uma grande preocupação com a dignidade da vida humana, que se traduziu no combate a práticas degradantes como o aborto, o infanticídio e as lutas de gladiadores. O cristianismo valorizou a criança, a mulher, o idoso, o casamento e a vida familiar. Embora no início os cristãos tenham mantido a escravidão que existia no Império Romano, a fé cristã continha valores que levaram à gradual extinção desse mal. Tem sido imenso, ao longo do tempo, o esforço dos cristãos em socorrer os pobres, doentes e desamparados de toda espécie, através de um sem-número de iniciativas e instituições humanitárias. Até hoje, tanto em tribos indígenas e populações carentes como entre povos adiantados, a contribuição cristã nessas áreas se faz notar de modo saliente. No Brasil pode ser visto através das duas maiores correntes cristãs, a igreja católica através da teologia da libertação, e a igreja protestante (evangélica) através da teologia da missão integral.

O legado cultural
Sem desprezar as magníficas contribuições das antigas civilizações grega e romana, foi principalmente o cristianismo que moldou a vida dos povos ocidentais como os conhecemos hoje, além de exercer grande influência positiva na África e na Ásia. À medida que a fé cristã se expandia, ela elevou o padrão de vida dos povos que deram origem às nações europeias. A contribuição cristã na área da educação tem sido das mais destacadas. Durante séculos, as únicas escolas que existiam estavam ligadas à igreja. Muitos povos, ao serem evangelizados, receberam simultaneamente a escrita e a alfabetização, como ocorreu entre os eslavos, na Europa oriental, e em muitas nações africanas. A Bíblia, traduzida para as línguas desses povos, se tornou importante nesse processo. As primeiras universidades (Paris, Bolonha, Oxford) e muitas outras surgidas mais tarde (Harvard, Yale, Princeton etc.) foram criadas por cristãos.

O cristianismo deu uma contribuição inigualável em outras áreas significativas, notadamente em séculos recentes. Alguns exemplos no âmbito político são o governo representativo, a separação dos poderes, a expansão da democracia e a ampliação dos direitos e liberdades civis. As convicções cristãs permitiram a ascensão econômica do homem comum, gerando prosperidade para famílias e povos. Outra área de atuação foi a ciência, não só pelo fato de que a maior parte dos cientistas ao longo da história têm sido cristãos, mas de que o cristianismo, com sua visão de um mundo ordenado e sujeito a leis fixas, porque criado por Deus, possibilitou o próprio surgimento da ciência. E que dizer das contribuições nos campos da literatura e da arte? Se não fosse o cristianismo, não teríamos obras como as “Confissões”, de Agostinho, a “Divina Comédia”, de Dante, o “Paraíso Perdido”, de Milton, e tantas outras. Não contemplaríamos as magníficas catedrais góticas, a Capela Sistina, bem como as esculturas e pinturas de Michelangelo, Leonardo da Vinci, Rembrandt e outros mais. Não poderíamos ouvir “O Messias” de Haendel nem as inspiradoras composições de Johann Sebastian Bach.

Valores religiosos e éticos
Os legados mais valiosos do cristianismo ao mundo são a vida e os ensinos de seu fundador, registrados no Livro dos Livros. Jesus Cristo, o carpinteiro de Nazaré que os cristãos consideram o próprio Filho de Deus encarnado, proferiu algumas das palavras mais belas, sublimes e cativantes que se conhecem na história humana. Ele falou das coisas transcendentes e eternas de modo simples e acessível a qualquer indivíduo. Os valores que ensinou, como o amor, a compaixão, o altruísmo, a integridade, a veracidade e a justiça, têm trazido benefícios incalculáveis ao mundo. Todavia, ele não se limitou às palavras e conceitos, mas exemplificou em suas ações as verdades que buscava transmitir. Por fim, deu sua vida na cruz para cumprir cabalmente a missão de que estava incumbido. Desde então, seu ensino e exemplo têm inspirado e transformado milhões de pessoas em todos os recantos do mundo, além de ter induzido mudanças radicais nos mais diferentes aspectos da sociedade.

Sem Cristo e seu grandioso legado, o mundo certamente seria um lugar muito mais sombrio, triste e desesperançado. Essa é a tese de D. James Kennedy em seu livro “E se Jesus não Tivesse Nascido?” (Editora Vida, 2003). Não se pode negar que muitos não-cristãos têm dado contribuições relevantes à sociedade. Os cristãos não têm dificuldade com isso, porque entendem que Deus atua em toda a criação e que sua imagem, ainda que desfigurada, está presente em todos os seres humanos. Todavia, as alternativas de um mundo sem fé e sem cristianismo podem se tornar aterrorizantes. Basta lembrar que os homens mais cruéis, desumanos e sanguinários do século 20 — indivíduos como Josef Stálin, Adolf Hitler, Mao Tsé Tung e Pol Pot — além de não serem cristãos, eram inimigos do cristianismo. Mesmo sem apelar para casos extremos como esses, está claro que o crescente secularismo que avassala o mundo, com sua relativização do significado e da importância da vida, representa uma grande ameaça para o futuro da humanidade.[2] [1] Morashá:  http://www.morasha.com.br/judaismo-no-mundo/judeus-e-premio-nobel.html
[2] Ultimato: http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/314/em-defesa-do-cristianismo
[3] https://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/duas-palavrinhas-sobre-o-legado-cristao/

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