O perfil do líder do século XXI

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Desafios e possibilidades no pastorear e ser pastoreado.

A proposta de pensar a psicologia e a espiritualidade é sem dúvida um desafio. Temos observado que a fé e a religião, excluídas das ciências nos últimos séculos, passam novamente a despertar interesse, a ponto de surgirem diversos grupos de estudo e simpósios com este tema. Pesquisadores tanto da área médica quanto emocional buscam as interfaces com outros campos do conhecimento, na inter e transdisciplinaridade e o resultado se faz notar em termos práticos, de novos campos de atuação.

Neste encontro de pastores buscamos mostrar de forma teórico – vivencial como é possível o diálogo entre ciência e fé.

O texto bíblico escolhido como referência diz: “Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo os colocou como bispos, para pastorearem a Igreja de Deus.” Atos 20:28.

Ou seja, sem o cuidado de si mesmo não é possível cuidar dos outros. As demandas da atividade pastoral, em qualquer dimensão, geram desgastes físicos, emocionais, espirituais.

É preciso estar atento para se recompor tanto preventivamente quanto terapeuticamente quando necessário.

Utilizamos para estrutura deste pensar sobre si mesmo um pequeno livro, “O Perfil do Líder Cristão do século XXI” do sacerdote e professor de Psicologia Pastoral em Harvard e nas universidades Notre Dame e Yale, escritor e conferencista internacional, falecido em 1996,Henri Nouwen.

Os pontos que ele aborda, a partir dos textos bíblicos da tentação de Jesus no deserto(Mt. 4:1- 11) e o chamado de Pedro (Jo 21: 15-19),são:

1 – Da Relevância à Oração

A tentação: Causar impacto

A pergunta: Você me ama?

A disciplina: Oração contemplativa

Os religiosos são muitas vezes tentados a causar impacto a partir de si mesmos. Ser um sacerdote miraculoso, principalmente no contexto da pobreza, acaba por trazer grande popularidade… satisfazer necessidades humanas, legítimas, nos toca de perto! Nouwen propõe que o impacto se dê pelo afeto, por alguém que se importe, por um pastor que realmente apascenta suas ovelhas. Isto só é possível quando amamos a Deus acima de todas as coisas, quando Ele nos pergunta “Tu me amas?” e respondemos como Pedro “Tu sabes que te amo”! O amor nasce e cresce pela convivência de intimidade, o tempo que passamos na presença de Deus faz a diferença. Nós vamos a Ele e Ele vem a nós. Assim como Pedro, somos amados por Deus em nossa condição, sendo nós ainda pecadores, e a partir da contemplação, da oração, da solitude, somos inundados pela graça de Deus, que nos restaura.

2 – Da popularidade ao ministério

A tentação: Ser espetacular

A tarefa: ”Apascenta minhas ovelhas”

A disciplina: Confissão e perdão

Aprendemos nas Escrituras que Jesus não veio dar espetáculos. Seus milagres eram pura misericórdia para com pessoas necessitadas. Nosso conceito de sucesso é muitas vezes determinado pela mídia. Jesus não buscou ser famoso, Ele tinha um ministério e sabia o que estava fazendo. Ele escolheu pessoas que o acompanharam nesta missão. Pastores precisam aprender a conviver, a não se isolarem. A tarefa de apascentar ovelhas é relacional, envolve afetos. Cuidar das ovelhas feridas, cansadas, levá-las para bons pastos e águas tranqüilas é o que faz um bom pastor. Nouwen destaca que muitos pastores gostam de trabalhar sozinhos, tem dificuldade de repartir problemas e soluções com colegas e sentem-se, eles mesmos, cansados e abandonados. São pastores que precisam ser cuidados.

Pontua que isto se dá quando pastores aprendem a confessar, eles próprios, suas mazelas.

Escreve ele:…”na comunidade cristã, os sacerdotes e ministros são as pessoas que menos confessam os seus erros.” E como Bonhoeffer, ele constata que pela confissão e pelo perdão recupera-se a humanidade, ou seja, a relação não é profissional, mas de ajuda. Sugerimos que os pastores tenham alguém com quem conversar, e mais especificamente, que tenham um supervisor ou mentor, com os quais seja possível tratar tanto de assuntos pessoais, familiares quanto de questões eclesiásticas.

3 – De líder a liderado

A tentação: Ser poderoso

O desafio: “Outro o conduzirá”

A disciplina: Reflexão Teológica

A tentação de ser dominador, de usar o poder para resolver as questões persegue os pastores. Abrir mão do poder para usar do amor é cansativo e complicado, envolve ser o ser o que serve e não o que é servido. Aprender a conviver com o poder sem se deixar corromper é um exercício a ser vivido diariamente. Nouwen destaca que as pessoas que tem menos intimidade e afeto são as que mais controlam. Ao lembrarmos que Jesus ao ser crucificado abdicou do seu poder nos perguntamos: e quem quer a cruz?! O desafio de ser conduzido por outro é um lembrete que talvez nem tudo seja como planejamos… talvez Deus nos conduza por outros meios e caminhos. A disciplina da reflexão teológica é a de pensar com a mente de Cristo. Para ser líder, pastor de uma igreja é preciso aprender a dizer não ao fatalismo, ao desespero, a injustiça à resignação, ter a noção do Kairós frente às dores do mundo.Viver as boas novas da salvação que nos alcança como pessoas, como famílias, como comunidade e sociedade.

Ser liderado por Deus é exercitar seu pastorado pelo encontro com o semelhante, pela oração, pela confissão, pela reflexão teológica. Sem dúvida, é ser inteiro e integrado.

 

Bibliografia especifica:

O Perfil do Líder Cristão no século XXI. Worship Produções – Americana, SP 1993

Bibliografia geral:

Tournier, Paul – Mitos e Neuroses – Desarmonia da Vida Moderna.

SP, ABU Editora/Ultimato – Viçosa, 2002.

Atiencia, Jorge – Pastorear e ser Pastoreado. Curitiba; Encontro, 2000.

Azevedo, Irland Pereira de – De Pastor para Pastor – Um Testemunho Pessoal

Rio de Janeiro. Julho, 2001.

Boff, Leonardo – Saber Cuidar: Ética do humano – Compaixão pela Terra. Petrópolis;

Vozes, 2001.

Hoch, Lothar Carlos (texto avulso) – O Pastor como Pessoa – Uma conversa franca com

obreiros e obreiras da ICLB em Joinvile – 20/09/2001.

Yancey, Philip – Maravilhosa Graça – SP; Vida, 2001.

Nouwen, Henri – A volta do filho pródigo – A historia de um retorno para casa – SP;

Paulinas, 1997.

Boenhoeffer, Dietrich – Vida em Comunhão – São Leopoldo; Sinodal, 1997.

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