Desigrejados e suas heresias

Desigrejados e suas heresias

Esse texto tem por finalidade disponibilizar ao público evangélico com mais agilidade uma pequena parte do conteúdo de dois livros que escrevi direcionado ao tema, focado nas heresias disseminadas pelos desigrejados. Haja vista que a aquisição de um livro hoje em dia no Brasil não tem sido tão fácil, por dois motivos: desinteresse do público brasileiro pela leitura e também pelo preço unitário que se encontra o livro devido aos impostos. Quem tiver o interesse da leitura completa das obras e tem condições financeiras de adquirir, disponibilizo no final desta postagem na bibliografia.

O que é uma heresia? A Bíblia usa a palavra “hairesis” em várias circunstâncias. As definições que encontramos no grego são “um grupo de homens seguindo seus próprios preceitos” (J. Strong) quando associada à uma seita, que tem por definição na apologia cristã como “um grupo de pessoas motivado por heresia”. Também encontramos a definição de “dissensões decorrente da diversidade de opiniões e objetivos” (idem). Sendo definida na apologia cristã como “uma opinião contrária, deturpada ou excedente da Bíblia”. Note que nem sempre pode ser contrária ou que excede a Bíblia, mas a heresia mais perigosa é a que deturpa o texto bíblico. O dicionário do NT grego apresenta um nota muito salutar:

“Na Bíblia, a heresia é mencionada como um perigo para a comunidade de fé, pois leva a dissenções e à distorção da verdade […] destaca a ideia de escolha e divisão, ilustrando como a heresia pode dividir e enfraquecer a comunidade cristã”. (J. Strong).

A “hairesis” é mencionada na Bíblia como algo que pode causar divisão entre os irmãos revelando quem está aprovado ou não na fé: “E até importa que haja entre vós facções, para que os aprovados se tornem manifestos entre vós”. (1Co.11.19 AR). Embora seja de cunho doutrinário, há passagens bíblicas em que “hairesis” é associada como uma obra da carne, pois cria divisão entre os irmãos, onde cada versão em português tem uma tradução variada como: facções, partidarismo e heresias (ver Gl.5.19-21) . E por fim “hairesis” está associada a ensinamentos produzidos pelos falsos mestres, que causam danos mais graves a fé (isto é, destruição), levando a questionar até mesmo Jesus: “Mas houve também entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá falsos mestres, os quais introduzirão encobertamente heresias destruidoras, negando até o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição”. (2Pe.2.1 AR).

A Bíblia usa ainda o termo “heterodidaskaleo”. Essa palavra dar origem ao termo “heterodoxia”. É muito usado pelos apologistas cristãos e que significa “pensamento ou entendimento (doxa) diferente (heteros). A palavra “heterodidaskaleo” quer dizer “ensinar outra ou diferente doutrina, desviando-se da verdade” (J.Strong). Essa palavra consta, por exemplo, em 1 Timóteo 6.3,4 que diz: “Se alguém ensina alguma outra doutrina e discorda das sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo e da doutrina que é da acordo com a piedade é arrogante e não compreende nada…”.

O que são os desigrejados? O termo é utilizado para definir as pessoas que não pertencem as igrejas locais comumente conhecidas na história da igreja com suas diversas denominações cristãs evangélicas/protestantes e também para designar “pessoa que não se congrega”. Onde esse “não pertencimento” ocorre em vários níveis e por vários motivos. Desde o mais radical, que são aqueles que não se congregam em igreja alguma e fazem militância generalizada contra as denominações existentes até aos que se congregam em alguma igreja local, mas são desinstitucionalizados ou têm um frágil vínculo com alguma denominação cristã evangélica. Eu escrevi dois livros sobre esse assunto, bem como conheço vários outros abordando a mesma temática. Se houver o interesse de conhecer mais sobre desigrejados confira os links recomendados na bibliografia dessa postagem. O termo “desigrejados” é utilizado para nominar o fenômeno eclesiástico que surgiu por conta do desencanto com as instituições religiosas, principalmente com as igrejas de segmento neopentecostal. Os maiores vilões do surgimento desse movimento!

Quais são as heresias dos desigrejados?

A disseminação de heresias por parte dos desigrejados é muito grande e sua principal ferramenta é a internet. Por isso, a todo momento encontramos desigrejados criando heresias e publicando nas redes sociais, sites, blogs etc. As heresias dos desigrejados abrange vários aspectos da teologia, da eclesiologia, teologia pastoral, bibliologia e até mesmo da escatologia, pois vemos hoje um grupo bem significativo de desigrejados que abraçaram o preterismo. Vejam só, enquanto tem desigrejados prevendo a vinda de Jesus, como Romilson Ferreira, teoria da conspiração, como Rubens Sodré, há um grupo deles que negam tudo isso alegando que Cristo já veio em 70 d.C. Você pode se inteirar sobre essa parte lendo a compilação que fiz de obra bem relevante sobre o tema disponível no final desta postagem em bibliografia.

Portanto, não é tão fácil assim apresentar todas as heresias desse movimento, pois tem até pastor de denominação cristã usando fala de desigrejado e com eclesiologia de desigrejado. Por isso, vou pontuar abaixo tomando por base o conteúdo já apresentado nos dois livros que escrevi, onde faço algumas adaptações e atualizações aqui nesta postagem, em que, como apologista cristão e estudioso do fenômeno da religiosidade há muitos anos, tenho detectado várias heresias nas mensagens difundidas por esse grupo faccioso e por isso precisam ser denunciadas para que os crentes desavisados de várias igrejas locais pelo mundo venham a se inteirar da nocividade do que esses facciosos ensinam.

HERESIA 01: “A Igreja de Jesus é a universal – espiritual”.

Geralmente, o desigrejado tenta a todo custo levar a abordagem sobre igreja para o âmbito universal – espiritual. A igreja enquanto a soma de todos os cristãos do mundo inteiro e dos que estão arrolados no céu. Ele vai até lhe mostrar textos bíblicos, tipo o lá de Hebreus: “Mas tendes chegado ao Monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial, e incontáveis hostes de anjos; à assembleia geral e igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus, e a Deus, o juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados”. (Hb.12.22,23 Almeida Recebida).

Essa passagem bíblica é maravilhosa, entretanto a forma como os desigrejados usam é tendenciosa. E deixa de ser Palavra de Deus para ser palavra do demônio. Pois ele torce o texto. Onde que tem aqui dizendo que não existe a igreja local? Mostre-me que essa passagem defende você não frequentar a igreja local? O texto apenas diz que o cristão tem uma conexão espiritual com todos os demais cristãos por meio da fé que professa. E que o monte que o aproxima de Deus é o de Sião e não aquele que o condena pelas obras da lei por causa da sua pecaminosidade, o monte Sinai: “monte palpável, que queimava com fogo”. (idem v.17). Pertencer a “À universal assembleia e igreja dos primogênitos” (idem v.23 Almeida CF) não anula pertencer a igreja local – física – visível. E pertencer a igreja local não te afasta de pertencer a igreja universal – espiritual – invisível. Porém quem está de fato inserido no corpo de Cristo (1Co.12.27), na lavoura de Deus (1Co.3.9), no edifício do Senhor (idem), na casa de Deus (Tt.1.7), está ligado na igreja universal – invisível e tem como evidência a sua participação na igreja local – visível. Não existe duas igrejas. Na verdade separamos os assuntos para estudarmos. A igreja de Jesus é uma só, mas com suas diversas localidades e endereços.

Exemplificando, a igreja universal – espiritual seria como o pavio acesso com fogo, uma vela. E a base de cera é a igreja local. Um está ligado ao outro componente. Mas o que realmente importa na escuridão é o fogo. A presença divina e regeneração seria como o fogo. Assim, o cristão precisa do fogo (da presença divina e da regeneração), do pavio (da igreja universal) e da cera (da igreja local).

A igreja local se liga a igreja universal como a base de cera se liga ao pavio. E a igreja universal se liga a presença divina e a regeneração como o pavio se liga ao fogo. Um cristão meramente nominal pode até ser de uma igreja local, mas não pertence a igreja universal, pois não é regenerado. Não tem a presença divina. Porém o cristão autêntico, regenerado, que pertence a igreja universal não aguenta ficar sem pertencer a igreja local. Pois lhes são intrínsecas. Ou você já ascendeu uma vela no pavio sem a cera? Veja só isso, faça a experiência: Se você digitar a palavra IGREJA em seu desktop teremos uma palavra digital na tela. Mas você só terá uma palavra escrita no papel físico se imprimir. Assim é a igreja universal e igreja local. A Palavra de Deus tanto tem passagens que falam da igreja universal como da igreja local. Eu poderia mostrar dezenas de passagens aqui sobre isso. Mas quando se tenta conduzir uma conversa sempre no âmbito da igreja universal pode ter certeza que esse papo é de desigrejado. Pois o sujeito engodado nesse movimento herético jamais deixará você conduzir a conversar para o âmbito local, de espaço físico, de lugar visível, porque ele está ausente ou se opõe de forma concorrente, fazendo militância. E não quer saber de seus argumentos. Sabe aquela pessoa que comete um pecado e a não quer largar? E daí procura até respaldo na Bíblia para isso? Então não se deixe enganar com esse pensamento de desigrejado. Afaste-se ou mude de assunto, pois ele não retornará a igreja local assim facilmente. Pelo contrário, ele vai persuadi-lo de fazer o mesmo!

HERESIA 02: “Jesus e seus discípulos foram contra o sistema religioso”.

Geralmente, os desigrejados são desinstitucionalizados. Toda a sua filosofia de vida é direcionada à pessoas que pensam que nem eles. À seita dos desigrejados. Eles não querem compromisso com uma instituição. Alguns menos fanáticos até visitam congregações. Já os mais fanáticos se reúnem em pequenos grupos naquela visão caseira. Nada de lugares de cultos separados exclusivamente para isso e nada de pastores. E se respaldam dizendo que Jesus se afastou do sistema religioso e também os seus discípulos. Será que isso é verdade? Vejamos então: Jesus é Deus (Jo.1.1,2; Jo.20.28; 1Jo.5.20) correto? Então partindo dessa premissa ele teve participação direta em todo o sistema religioso de Levítico. Lá consta Deus falando com Moisés: “Ora, chamou o Senhor a Moisés e, da tenda da revelação, lhe disse: Fala aos filhos de Israel e dize-lhes”. (Lv.1.1 Almeida Recebida). E foi assim por todo o resto do livro. Deus foi quem implantou o culto em Israel com todas as suas cerimônias, ritos e ministros de culto. Então como seria contra o sistema que ele mesmo implantou? As pessoas são muito tolas em acreditar numa bobagem dessas.

Agora se dissermos que muitos religiosos da época de Jesus eram pessoas imorais e criaram uma rede de maldade e ganância em torno deles é outra coisa. Entretanto, o que Jesus, como Deus e Senhor, transmitiu ao seu povo constitui a base de culto, fé e religião do cristianismo. Confira suas palavras:

“Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos; porque a salvação vem dos judeus”. (Jo.4.22 Almeida Recebida).

“Abraão, vosso pai, exultou por ver o meu dia; viu-o, e alegrou-se. Disseram-lhe, pois, os judeus: Ainda não tens cinquenta anos, e viste Abraão? Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou”. (Jo.8.56-58 Almeida Recebida).

“Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim para destruir, mas para cumprir”. (Mt.5.17 Almeida Recebida).

“Os quais são israelitas, de quem é a adoção, e a glória, e as alianças, e a promulgação da lei, e o culto, e as promessas; de quem são os patriarcas; e de quem descende o Cristo segundo a carne, o qual é sobre todas as coisas, Deus bendito eternamente. Amém”. (Rm.9.4-5).

E por falar em cristianismo, temos que entender que não havia a religião cristã nos tempos dos discípulos. O que existia era a fé no Senhor Jesus como Messias. Todos os discípulos primitivos eram judeus (fosse natural ou helenista), frequentavam as sinagogas e iam ao templo enquanto ele durou. Logo, como poderiam construir igrejas, santuários ou lugares de culto se em muitos deles nem passava isso por suas cabeças? Portanto, o fato histórico deles se reunirem em casas é bem óbvio. Fica claro que os desigrejados possuem um erro grave de hermenêutica bíblica histórico/cultural quanto a eclesiologia. Se olharmos para a história da igreja, encontraremos pequenos traços do que é a igreja hoje, na questão estrutural e religião distinta, após o ano 70 d.C., onde ocorre a destruição do templo judeu e da cidade de Jerusalém. Os cristãos então começam a ter uma identidade impar e visível, vindo depois a perseguição de Roma sobre eles. Embora rompimentos teológicos com o judaísmo já estivesse ocorrendo quando a igreja em Jerusalém começou expandir o trabalho missionário e alcançar os gentios transferindo sua base de missões para Antioquia. A visão de todos era que os cristãos existiam como um ramo do judaísmo.

Jesse Hurlbut (1996) relata:

“A queda de Jerusalém no ano 70 impôs grandes transformações nas relações entre cristãos e judeus […] o efeito produzido na igreja, pela destruição da cidade foi que pôs o fim, para sempre, nas relações entre Judaísmo e o Cristianismo. Até então, a igreja era considerada pelo governo romano e pelo povo, em geral, como um ramo da religião judaica. Mas, dali por diante judeus e cristãos separaram-se definitivamente”.

Bruce Shelley (2018) relata:

“Alguns anos mais tarde [ após 70 d.C.], ao tomarem a decisão de barrar judeus cristãos nos cultos na sinagoga, o rompimento estava completo. Qualquer judeu que desejasse permanecer fiel à sua religião não poderia ser também cristão […] Enquanto as autoridades romanas consideraram os cristãos uma seita dos judeus, os seguidores de Jesus desfrutaram dessa mesma imunidade da pressão imperial; todavia, quando os judeus deixaram claro que nada tinham a ver com o novo movimento, a situação mudou drasticamente”.

No primeiro livro Desigrejados (2017) relato que:

“… há depoimentos de historiadores de que os cristãos ainda do século I d.C. se reuniam em casas particulares e em salões alugados. Nos períodos em que cessavam temporariamente as perseguições construíram-se templos para as igrejas. Porém, tempos depois, com Diocleciano e seus sucessores determinavam uma série de editos contra o cristianismo, e um deles era a destruição desses mesmos templos cristãos. Em alguns lugares os cristãos eram encerrados nos seus templos, e depois lhe ateavam fogo, com todos os membros dentro”.

Lembrando que o motivo da perseguição de Roma aos cristão não foi porque eles se desmembraram dos judeus. Mas porque eles tinham um modo de viver diferente. Embora o desmembramento tenha colaborado. Bruce Shelley (2018) explica:

“A principal causa do ódio contra os cristãos primitivos na sociedade romana residia em seu estilo de vida diferenciado. ‘Temos a reputação’, escreveu Tertuliano em Apologia, ‘de viver de forma contrária às multidões’. O termo utilizado para descrever os cristãos no Novo Testamento é bastante significativo: trata-se da palavra hagios, frequentemente traduzida como santos. Apesar de significar santos, sua raiz sugere diferentes”.

Mizael Xavier (2020) escreve:

“Historicamente, a Igreja demorou alguns séculos para se tornar a instituição como a conhecemos hoje […] embora, como veremos no capítulo ‘Respondendo aos Desigrejados’, desde a era apostólica ela já dava sinais da sua institucionalização para organizar-se. Como tal, ela possui seus erros e deficiências, e algumas aberrações nada dignas. Apesar disso, o povo de Deus jamais deixou de se reunir enquanto congregação, num ambiente físico, sob a liderança de um corpo de ministros, e com regras”.

Isso posto, observe que a igreja primitiva não teve paz duradoura em momento algum e não era religião independente do Judaísmo. Sendo assim, como fazer um comparativo estrutural eclesiástico dela com a igreja atual? Embora tenha alguns traços estruturais em época posterior ao ano 70 d.C., que se assemelhe a hoje, não havia tempo para isso prosseguir. Seria como pedir filhos á uma criança! Logo, esse argumento de desigrejado é inócuo diante de uma hermenêutica histórico/cultural sobre o assunto.

HERESIA 03: “Jesus não veio formar congregação ou denominação religiosa”.

Eu respondo que essa não era a missão de Jesus. Porque o mundo não estava pronto para isso no contexto de sua época. Ora vejamos: Já havia uma religião criada por Deus, o seu Pai. Com templo, sacerdotes, levitas, posteriormente ao cativeiro babilônico, sob permissão divina, com rabinos e sinagogas. Tudo isso derivado de uma família: Abrão, Isaque, Jacó até chegar no profeta Moisés. Passando por Esdras, Zorobabel até Jesus. Outra resposta importante era o domínio do império romano que dominava tudo naquela região em que Jesus nasceu. Roma não permitia uma nova religião, apenas as que já estavam autorizadas. Buscando, assim, evitar tumultos e revoluções. O que estava vigente no tempo de Jesus, por autorização romana era o culto judeu, a prática do judaísmo. Ora, se Jesus iniciasse logo com congregações e lideranças, com nova liturgia e adoração, ele e seus discípulos seriam massacrados juntos num tempo só. Além do mais, os seus próprios discípulos rejeitariam tal proposta, pois eles eram judeus, bem como Jesus.

Jesus veio criar a igreja global (universal), foi sobre essa igreja que ele pronunciou as palavras para Pedro: “… sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas da sepultura não prevalecerão contra ela”. (Mt.16.18b. Almeida Recebida). A igreja local veio depois de sua ascensão, quando os cristãos passaram a se reunirem sob a direção dos apóstolos e forte trabalho missionário após o derramamento do Espírito Santo no dia de Pentecostes. Criando-se várias comunidades desvinculadas do judaísmo e de sinagogas chamadas de “igreja” com o substantivo acompanhado de localidades. Exemplo: Corinto, Éfeso, Roma, Filipo, Antioquia, Tessalônica, Colossos, etc. Uma forma de proteger a localização exata de onde se reunia a igreja, caso as cartas endereçadas fossem interceptadas pelos que perseguiam a igreja. E que reproduziam novos seguidores de Jesus, batizava-os, celebravam a ceia do Senhor e possuíam diáconos e presbíteros, elencados por delegação dos apóstolos e concordância das igrejas espalhadas pelo mundo de então (ver At.20.28; Tt.1.5; Fp.1.1; 1Co.1.2; 1Ts.1.1; 1Co.11.23-29; 1Tm.3.5; 1Pe.5.1-4; At.6.1-6; Mt.10.40). Portanto, a igreja e Jesus coexiste em duas dimensões: global (universal) e local. Sendo que no âmbito global

Jesus edifica a igreja (Mt.16.18) e no âmbito local os apóstolos fundaram e gerenciaram a igreja (Ef.2.20-22). Deixando o legado para todos os líderes cristãos que foram fruto desse trabalho, que desenvolveram as congregações depois do século 1, e multiplicaram mais ainda a igreja no âmbito local até o fruto deles chegarem a nós.

HERESIA 4: “A igreja tem muitos problemas, erros e falhas. Prefiro só eu e Deus”.

Rick Warren (2003) responde esse pensamento de desigrejado escrevendo:

“As pessoas ficam desiludidas com a igreja por muitas razões compreensíveis. A lista poderia ser bastante longa: conflitos, mágoas, hipocrisia, negligência, mesquinharias, legalismo e outros pecados. Em vez de ficarmos abalados e surpresos, devemos lembrar que a igreja é feita de pecadores de verdade, inclusive nós mesmos. Por sermos pecadores, magoamos uns aos outros, às vezes intencionalmente e às vezes sem querer. Mas, em vez de deixarmos a igreja, precisamos ficar e solucionar o que for de alguma forma possível. A reconciliação, não a evasão, é a estrada para um caráter mais forte e para uma comunhão mais profunda. Divorciar-se da igreja ao primeiro sinal de decepção ou desilusão indica imaturidade. Deus tem coisas que quer ensinar a você e aos outros também. Além do mais, não há nenhuma igreja perfeita para onde escapar. Toda igreja tem seu próprio conjunto de fraquezas e problemas, e você logo ficará novamente desapontado”.

Percebemos acima que o escritor tem um direcionamento para cristãos que ainda não chegaram no fundo do poço de um desigrejado. No caso acima a palavra é direcionada para o cristão imaturo que sai de uma igreja local para outra sempre que tem desapontamentos. Esse é um nível mediano de desigrejado. Porém, se desprezar o conselho dado acima com certeza logo adotara a postura de isolamento ou conhecerá os hereges da seita dos desigrejados. Note que o importante aqui é que a maturidade cristã é o melhor remédio para essa situação. Vou mais além, o despreparo bíblico e teológico do cristão acaba levando-o a generalização de que todas as instituição religiosas são incompetentes, possuem um sistema religioso corrompido e que por isso devem ser desprezadas. Isso ocorre por falta de uma visão ampla da Igreja do Senhor Jesus Cristo. Será que Jesus deixaria todas as congregações, instituições cristãs, denominações naufragarem na corrupção ou apostatarem da fé? Ele mesmo disse:

“… edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.”. (Mt.16.18 Almeida XXI).

Se nem o inferno (ou a morte) pode prevalecer contra ela, como problemas relacionais, conflitos, imoralidade, corrupção ou outra coisa poderia acabar com a igreja do Senhor? É certo que o apóstolo Paulo apontou que nos últimos tempos haveria a apostasia de alguns. Mas ele não falou de todos! Falou? Ele disse:

“Mas o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios”. (1Tm.4.1 Almeida CF).

Assim, ele jamais disse que todo o cristianismo em suas diversas igrejas locais se desviariam da verdade, da sã doutrina ou da pureza, para que você se isolasse em casa como um soldado sobrevivente de uma exército que perdeu a guerra.

Portanto, você que tá na igreja não se deixe levar pelas situações, adversidades e por esses pensamentos de desigrejados. Fique firme na igreja local. O nosso general é Cristo e ele está no comando. Você não é a última bolacha do pacote. Muitas igrejas seguem firmes na fé, pureza e na verdade. Deixo-lhe uma passagem bíblica para refletir e sair dessa síndrome de Elias:

“E ele disse: Eu tenho sido em extremo zeloso pelo Senhor Deus dos Exércitos, porque os filhos de Israel deixaram a tua aliança, derrubaram os teus altares, e mataram os teus profetas à espada, e só eu fiquei; e buscam a minha vida para me tirarem […] E o Senhor lhe disse: Vai, volta pelo teu caminho […] Também deixei ficar em Israel sete mil: todos os joelhos que não se dobraram a Baal, e toda a boca que não o beijou”. (1Rs.19.14,15,18 Almeida CF. Atenção ao sublinhado).

HERESIA 05: A “teoria da conspiração Illuminati”.

Esse ensinamento entre os desigrejados alimenta a ideia de que existem pessoas malignas que governam o mundo desde a época da torre de Babel, da cidade de Ninrode, e que até hoje seu domínio foi preservado no poder por Satanás através de treze famílias espalhadas pela Inglaterra, Israel, Estados Unidos e outros países.

Estes grupos se denominam “famílias Illuminatis”. Comentaristas até se arriscam nominando algumas destas famílias. Segundo esta vertente doutrinária estes grupos controlam cada detalhe da história humana e reescrevem todas as literaturas com o objetivo de manter o monopólio global e total. Dominam os bancos, a mídia e a indústria cinematográfica. Essas informações são facilmente encontradas no YouTube (cf. Vídeo: “Quem São os Illumitati” parte 1/10. 2010).

Para muitos “desigrejados” a conspiração não é “teoria”, é mais verdadeira do que a própria Bíblia. Para eles é mais fácil acreditar nessa teoria do que na origem, transmissão, canonização e tradução da Bíblia, pois duvidam de seus exemplares e traduções atuais. Não duvidam, entretanto, da teoria da conspiração. A família Illuminati para eles é do tipo “onipotente” e Satanás é maior do que Deus, pois conseguiu corromper o texto bíblico. O que há, segundo estes, é apenas um punhado de frases que eles chamam de “As Escrituras”. O restante da Bíblia os Illuminatis e Satanás conseguiram alterar, maculando o nome de Jesus, o nome de Deus e etc.

Talvez se deva crer em partes dessa teoria. Podemos acreditar que o diabo conspira para agir plenamente na Terra; podemos até crer que o mundo será entregue a uma Nova Ordem Mundial; pode se acreditar que surgirá um líder político mundial, que haverá uma só moeda, no surgimento de um falso profeta que enganará o mundo; que os moradores da terra receberão um chip de controle, que existem sociedades secretas como Illuminatis, Clube Bilderberg, Skull and Bone, Maçonaria, Ordem Rosacruz e etc. Entretanto, é inadmissível acreditar cegamente nessas teorias como faz o Sr. Rubens Sodré, autor do canal Verdade Oculta, e demais “desigrejados”!

Engodo fácil é acreditar que essas sociedades secretas ou o diabo tenham mais poder do que Deus a ponto de mudar a Bíblia e controlar todas as igrejas cristãs. Isso é um absurdo! Convém lembrar o caso de Nabucodonosor, rei babilônico, com toda a sua grandeza, não estava fazendo nada mais que a vontade de Deus, o Senhor de toda a terra: “Agora, eu entregarei todas estas terras ao poder de Nabucodonosor, rei da Babilônia, meu servo; e também lhe dei os animais do campo para que o sirvam. Todas as nações servirão a ele”. (Jr.27.6,7a). Ninguém é maior do que Deus! Rubens Sodré e demais “desigrejados”, subtraem o ensino bíblico da soberania de Deus.

HERESIA 06: A ênfase do Nome sagrado.

Teoria copiada de um movimento que surgiu na década de 80 no Brasil denominado vulgarmente como “Testemunhas de Yehoshuah”. É uma versão “hebraizante” do cristianismo. Prega que é errado usar o nome Jesus. O certo seria sua forma hebraica Yeshua ou a forma mais arcaica Yehoshuah ou ainda Yahoshuah, comum no período anterior ao exílio babilônico. Segundo esta nova compreensão todas as demais igrejas cristãs estão erradas. Acredita-se que o nome Jesus é de origem pagã e é em si mesmo uma blasfêmia e difamação do nome sagrado do Redentor. Desta forma todos servem a um falso deus quando invocam o nome Jesus. Em alguns vídeos a seita virtual Verdade Oculta faz as mesmas declarações assemelhando-se com o movimento O Nome Sagrado. A diferença é que, baseado na “teoria da conspiração”, Rubens Sodré prega que o nome Yahoshua foi alterado para “Jesus” pelos Illuminatis com intenção de blasfemá-lo. Esta teoria é oriunda de uma leitura imatura da Bíblia e é facilmente desmascarada. A princípio deve ser observado que o nome Jesus é uma transliteração direta do nome Yeshua (abreviação de Yehoshua) para o grego Iesous. Cada caractere hebraico foi transliterado para o grego: Y (i = iota) E (e = eta) SH (s = sigma. Da consoante hebraica shin) U (ou = ditongo vocálico com som de “u”) A’ (s = sigma, em lugar da consoante gutural “ayin” e sem som e da vogal massorética “patár”).

A questão do “s” no fim do nome de Jesus ocorre porque no grego não permitia um nome masculino terminar com “a” (no caso a letra hebraica “ayin” com a vocalização “a” do nome Yeshua), daí colocou-se o “s” (sigma) no final do nome de Cristo. Como ocorre no final de muitos nomes masculinos, exemplo: Petros (Pedro), Paulos (Paulo), Epainetos (Epêneto – Rm.16.5), Amplias (Amplíato – 16.8), Akulas (Áquila – 16.3), Andronikos (Andrônico – 16.7).

A questão do “J” no início do nome de Jesus ocorre porque os judeus da Dispersão, empenhados em traduzir as Escrituras hebraicas para o grego (a Septuaginta – LXX), não encontraram nessa língua uma consoante que correspondesse ao “yod” (Y) do hebraico, e a solução foi recorrer à vogal grega “iota” (I), que corresponde ao nosso i. Então escreveram “Ieremias”, começando com i, e assim por diante, inclusive “Iesous”. No hebraico a letra y (yod) representa tanto o som vogal i como a consoante y. O mesmo acontecia com o latim com as letras i e u. O emprego das letras j e v para representar i e u consonânticos ocorreu na época do Renascimento, foi difundido por Pierre de la Ramée, também conhecido como Petrus Ramus.

Outro grande equívoco é dizer que nome não se traduz. Há casos de nomes próprios serem alterados em sua grafia quando migrados para outra língua. Exemplo: João (português), John (inglês); Cefas (aramaico), Petros (grego), Pedro (português); Paul (inglês), Paulo (português); Maria (português), Mary (inglês), Marie (francês), Mirian (hebraico). (Cf. Site CACP. 2008).

Observação: Lembre-se que o Novo Testamento foi escrito em grego. Portanto, não se translitera Yeshu’a diretamente para o português. Translitera do grego Iesous, primeiramente para nossos caracteres maternos (latim). O que temos de transliteração direta é a palavra Yehovshu’a do Antigo Testamento (que foi escrito em hebraico), que é Josué em nossas Bíblias em português (uma junção do impronunciável tetragrama Yhvh com yeshuw’ah – salvação, libertação) Nesse caso a transliteração ocorre do hebraico para nossos caracteres maternos (latim) e por fim o português. Sendo que Josué no hebraico passado para o grego como ocorre na tradução Septuaginta é Iesous. Veja, por exemplo, em Êxodo 17.10 na versão grega: https://www.bibelwissenschaft.de/en/bible/LXX/EXO.17

HERESIA 07: O maculado nome de Deus.

Segundo seguidores da seita Verdade Oculta, o nome de Deus presente no tetragrama YHVH, foi blasfemado ao colocarem o nome “Adonay” para darem a pronúncia. Pois “Adonay” vem de um ídolo Adonis. Também afirmam que colocaram o “ha-shem” (O Nome) para que as pessoas não pronunciassem o nome de Deus. E ainda, declaram que a tradução “SENHOR” nas Bíblias em português vem de “Baal”. Resumindo: Os Illuminatis mexeram no texto sagrado e retiraram o nome de Deus da Bíblia e colocaram nomes de deuses pagãos como Adonis e Baal.

Em primeiro lugar, essa teoria de que o nome Adonay vem de Adonis, um ídolo pagão; que se traduz para “senhor” é uma compreensão vazia e tendenciosa, pois a palavra “senhor” tem uma diversidade no hebraico bíblico. Exemplos:

“Sirvam-te povos, e nações te reverenciem; sê senhor [gabiyr] de teus irmãos, e os filhos de tua mãe se encurvem a ti; maldito seja o que te amaldiçoar, e abençoado o que te abençoar”. (Gn.27.29).

“Não entregarás ao seu senhor [‘adon] o escravo que, tendo fugido dele, se acolher a ti”. (Dt.23.15).

“Ah! Senhor [‘adonay], estejam, pois, atentos os teus ouvidos à oração do teu servo e à dos teus servos que se agradam de temer o teu nome; concede que seja bem-sucedido hoje o teu servo e dá-lhe mercê perante este homem. Nesse tempo eu era copeiro do rei”. (Ne.1.11).

Como pode ser compreendido o Salmo 110.1? O texto apresenta a seguinte situação:

“Disse o SENHOR ao meu senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos debaixo dos teus pés”. O texto diz que YHVH (o SENHOR) disse a (o) ‘adown (senhor) de Davi para assentar a sua direita? Quem Deus chamou para sentar a sua direita? Seria Baal? Ou Adonis? Essas perguntas devem ser feitas para se ver que o argumento de “senhor” ser relacionado a um deus pagão é vazio e sem fundamento.

Em segundo lugar, observa-se que consta sim a palavra “Adonay” no texto hebraico. Além das várias passagens, e do já citado aqui, vê-se outra: “Ri-se aquele que habita nos céus; o Senhor zomba deles.” (Salmos 2:4). Onde ‘adonay está no texto traduzido como Senhor. E na versão grega do Antigo Testamento equivale a Kurios: https://www.bibelwissenschaft.de/en/bible/LXX/PSA.2 título bastante usado para Jesus no Novo Testamento. Por exemplo: “Se com tua boca confessares Jesus como Senhor [kurios]…”. (Rm.10.9).

HERESIA 08: A campanha contra os templos religiosos.

É muito comum se ouvir entre os “desigrejados”, devido fortes influências do canal Verdade Oculta do YouTube, o uso do termo “templocentrismo”. Há um vídeo do referido canal em que se interpreta erroneamente a passagem de Hebreus 10.25 onde claramente se recomenda ao cristão que se congreguem. Mas o Sr. Rubens Sodré demonstra total desconhecimento da hermenêutica e se conduz sem a mínima educação chamando os pastores de “cães gulosos” (cf. vídeo: “Hebreus 10 2 trecho que faltava”. 2010). Como a maioria dos “desigrejados” já pertenceu a instituições eclesiásticas, abominam tudo que os faz lembrar. Por isso dizem: “Templo sou eu”.

Todavia, essa frase ignora que há um templo no céu. A Bíblia diz: “Por isso estão diante do trono de Deus, e o servem de dia e de noite no seu santuário; e aquele que está assentado sobre o trono estenderá o seu tabernáculo sobre eles”. (Ap.7.15 grifo nosso). Em Apocalipse 11.1,2 fala do santuário em Jerusalém e no verso 19 fala do “santuário de Deus que está no Céu”. Essa mesma frase se repete em Apocalipse 14.17. Somente na eternidade, quando houver novo céu e nova terra, é que vemos a Bíblia dizer: “Nela não vi santuário, porque o seu santuário é o Senhor seu Deus Todo-poderoso, e o Cordeiro”. (Ap.21.22).

Enfim, os defensores desta doutrina precisam de uma interpretação muito figurativa dessas passagens para anular o fato de que o templo (do grego naos) venha a ser somente o corpo do cristão. Convém ressaltar que não há necessidade alguma de fazer do prédio onde a igreja se reúne um templo. Esta é uma visão muito superficial do que é ser igreja de Cristo, e muito literal da palavra “templo”, empregada aos prédios onde a igreja se reúne. Os “desigrejados” confundem “igreja” com “templo”. Este é o mal de todo movimento preconceituoso, não conseguir falar desvinculando uma coisa da outra. O prédio ou templo, como insiste Rubens Sodré que afirma-se ser a igreja, é só uma construção para os cristãos se reunirem e serem igreja, não dos judeus ou dos gregos, mas de Jesus, quando ele disse: “minha igreja” em Mateus 16.18. (diferenciando das outras assembleias que havia). Claro que não podemos minimizar os erros das lideranças evangélicas neopentecostais que transformam o termo “templo” figurativamente empregado ao prédio da igreja para literalmente. Creio que seja isso que faz os “desigrejados” criticarem.

É muito costumeiro ouvir dos “desigrejados” a seguinte frase: “Temos que adorar em qualquer lugar e não em um templo. Foi isso que Jesus disse a mulher Samaritana”. Estas críticas dos “desigrejados” se encaixam como uma luva nas igrejas neopentecostais já que as mesmas costumam fazer do templo um totem. Infelizmente algumas denominações históricas e pentecostais adotam um pensamento semelhante, o que as torna igualmente alvos destas críticas. De fato a igreja precisa se reunir em um lugar, seja este um local construído exclusivamente para o culto ou não. Aonde quer que se reúna, a verdadeira igreja prestará uma adoração. Ali os “verdadeiros adoradores” são conhecidos do Pai.

Jesus se apresenta a mulher samaritana como o fim e o objetivo do culto em local específico. O véu do templo se rasgando de alto a baixo no dia da crucificação é uma prova clara disso. Portanto, os “desigrejados” devem conhecer melhor as instituições para que saibam discernir as igrejas sérias das desvirtuadas.

A igreja de Cristo desde os seus primeiros séculos funcionava em prédios. No começo a igreja se fazia presente no templo (At.2.46) embora fosse o templo judaico. Posteriormente há depoimentos de historiadores de que os cristãos ainda do século I d.C. se reuniam em casas particulares e em salões alugados. Nos períodos em que cessavam temporariamente as perseguições construíram-se templos para as igrejas. Porém, tempos depois, com Diocleciano e seus sucessores determinavam uma série de editos contra o cristianismo com destruição desses locais de culto.

Jesse Hurlbut (1996. P.53,70) registra tais acontecimentos históricos quando escreve:

A última, a mais sistemática e mais terrível de todas as perseguições deu-se no governo de Diocleciano e seus sucessores de 303 a 310. Em uma série de editos determinou-se que todos os exemplares da Bíblia fossem queimados. Ao mesmo tempo ordenou-se que todos os templos construídos em todo o império durante meio século de aparente calma, fossem destruídos […]. Em alguns lugares os cristãos eram encerrados nos templos, e depois ateavam-lhe fogo, com todos os membros no seu interior. Consta que Diocleciano erigiu um monumento com esta inscrição: “Em honra ao extermínio da superstição cristã” […]. No período apostólico celebravam-se reuniões em casas particulares e em salões alugados […] durante o tempo de Diocleciano, alguns […] templos foram destruídos e outros confiscados pelas autoridades. Todos os templos que ainda existiam quando Constantino subiu ao poder, foram restaurados e aqueles que tinham sido destruídos, foram pagos pelas cidades em que estavam. A partir dessa época os cristãos gozaram de plena liberdade para edificar templos que começaram a ser erguidos, por toda parte.

Insistentemente os “desigrejados” sempre propõem que a igreja deve se reunir nos lares como a igreja primitiva fazia. Mas, esta afirmação é equivocada diante do fato de que não havia permissão do Império Romano a construção de prédios ou templos cristãos. Por isso, temos fatos históricos a considerar:

A nascente igreja foi perseguida e importunada pelos judeus até aproximadamente o ano 64 d.C. O cristianismo até o ano 70 d.C. era considerado pelo dominante Império Romano uma facção do judaísmo. Neste contexto era concedida aos judeus uma liberdade de culto que os cristãos buscavam usufruir indiretamente. Por exemplo, Paulo e Barnabé, em suas viagens missionárias, passavam sempre pelas sinagogas nas comunidades judaicas dispersas em cidades gentílicas.

Os cristãos foram perseguidos pelos romanos a partir de 64 d.C., culminando na dispersão e separação de ambos os grupos (judeus e cristãos) na destruição do Templo no ano 70 d.C. Diante deste quadro eles não conseguiam construir um local para se congregarem. Como alternativa se reuniam nos lares, catacumbas ou cavernas. Portanto, uma análise superficial do texto bíblico conduz a uma grave falha de hermenêutica histórica por parte dos “desigrejados”.

Posteriormente, no fim das perseguições sangrentas contra os cristãos primitivos, no Edito de Milão, em março de 313 d.C. e carta de Constantito a Anulino, procônsul da África (citado por Bettenson. 1983. P.44, 45) consta um seguinte depoimento histórico:

“Nós, Constantino e Licínio, Imperadores, encontrando-nos em Milão […] decidimos que, entre tantas coisas benéficas à comunidade, o culto divino deve ser a nossa primeira e principal preocupação. Pareceu-nos justo que todos, cristãos inclusive, gozem da liberdade de seguir o culto e a religião de sua preferência […]. Outrossim, com referência aos cristãos, ampliando normas estabelecidas já sobre lugares de seus cultos, nos é grato ordenar, pela presente, que todos que compraram esses locais os restituam aos cristãos sem qualquer pretensão de pagamento […]. Salve, estimadíssimo Anulino. É costume de nossa bondade exigir que as coisas pertencentes ao direito alheio não só sejam respeitadas, mas também restituídas […]. Portanto, mandamos que, ao receber esta carta, faça com que sejam restituídas imediatamente às igrejas cristãs as propriedades que estejam sob poder de qualquer pessoa em qualquer cidade ou lugar […] sejam devolvidos os jardins, as casas e qualquer outra propriedade que legalmente lhes tenham pertencido”.

O contexto brasileiro oferece liberdade de culto e permite a livre instalação da igreja em prédios devidamente adaptados para tal uso. Desprezar esta dádiva e reunir-se nos lares apenas porque a perseguida igreja primitiva o fazia é um verdadeiro desperdício.

Uma rápida exegese do texto de Hebreus 10.25 podemos ver indícios de que já nos tempos apostólicos haviam lugares onde os cristãos primitivos se reunião para o culto. Vejamos:

“Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima.”. (o grifo é nosso).

A palavra grega que está no texto acima donde traduz-se “congregar” aparece no manuscrito como “episunagogem” que é uma flexão de “episunagoge”, que quer dizer: “1) uma reunião em um lugar; 2) assembleia religiosa dos cristãos”. (J. Strong).

O autor aos hebreus admoesta aos cristãos hebreus a se reunirem na igreja local não importando-se onde seja ou esteja. Lembrando que o prefixo grego “epi” quer dizer: “1) sobre, em cima de, em, perto de, perante. 2) de posição, sobre, em, perto de, acima, contra. 3) para, acima, sobre, em, através de, contra”. (idem). E o sufixo grego “sunagoge” quer dizer sinagoga onde tinham diversas em uma mesma cidade, eram locais de ajuntamento dos judeus para orações, leitura da Tanach e culto. Eram prédios construídos e localizados em vários lugares. Sua origem foi desde o exílio babilônico. A junção epi + sunagoge quer dizer “reunião em um lugar”, em um “espaço determinado”.

HERESIA 09: A campanha contra as organizações eclesiásticas.

Percebe-se que “desigrejados” mais radicais negam totalmente a existência da igreja visível de Jesus. Eles só aceitam a igreja invisível. Agora todos são totalmente contra qualquer forma organizada de igreja. Porém, a igreja tem que se organizar para fazer o bem. Ora, os ímpios se organizam para fazer o mal. E nessa batalha entre bem e o mal, a igreja pode e deve ser constituída, deliberada e instituída. Não existe o crime organizado? Por que não pode existir a obra de Deus de forma organizada? Ora, é tolice pensar que a igreja primitiva trabalhou de maneira desorganizada, pelo contrário. Veremos isso mais adiante.

Se porventura existem igrejas se organizando para lucro pessoal ou algum tipo de charlatanismo, um dia, seus líderes e cúmplices vão prestar contas com Deus. A Bíblia diz: “Mas outros, na verdade, anunciam a Cristo por contenção, não puramente, julgando acrescentar aflição às minhas prisões. Mas que importa? Contanto que Cristo seja anunciado de toda a maneira, ou com fingimento, ou em verdade, nisto me regozijo e me regozijarei ainda”. (Fp.1.17,18).

Em outro texto observa-se que “Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade”. (Mt.7.22,23). O autor aos Hebreus destaca “E não há criatura que não seja manifesta na sua presença; pelo contrário, todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar contas”. (Hb.4.13).

Existem, entretanto, textos bíblicos que comprovam a existência da igreja visível e de forma organizada nos tempos apostólicos. Contando com a ajuda do texto de DEVER e ALEXANDER (2008. Página 72) observamos:

1. O caso da disciplina em 1Coríntios 5 presume um conhecimento público de quem pertencia à igreja e de quem não pertencia: “Pois com que direito haveria eu de julgar os de fora? Não julgais vós os de dentro? Os de fora, porém, Deus os julgará. Expulsai, pois, de entre vós o malfeitor”. (v.12,13). A expulsão só faz sentido no caso de alguém pertencer visivelmente à igreja (grego: ekklesia). Encontram-se outros textos em concordância: Colossenses 4.5; 1Tessalonicenses 4.12 e 1Timóteo 3.7. De fora de quê? Explicitamente demonstrado que fora de uma igreja visível. Como diz no Antigo Testamento: “congregação” (sunagoge) termo comum na Septuaginta em centenas de referências bíblicas (exemplo: Êx.12.3; Lv.4.13; Nm.1.18; Dt.5.22; etc.). Expressão usada em Hebreus 10.25 como sufixo, conforme já vimos anteriormente.

2. Em Mateus 18.17 no último processo de reconciliação Jesus pede para levar o caso à igreja. Ora, se não existe uma igreja organizada em um local e se esta igreja é apenas universal e invisível não faria sentido Jesus ordenar isso.

3. Em 1Timóteo o apóstolo Paulo orienta que, no caso de má conduta de um presbítero: “repreende-os na presença de todos, para que também os demais temam”. (1Tm.5.20). Como repreender um presbítero na “presença” de todos se não existisse uma igreja local e visível?

4. Observa-se também em 2Coríntios 2 quando Paulo disse que à igreja de Corinto que readmitisse o ofensor à sua comunhão, ele declarou: “basta-lhe a punição pela maioria” (v.6). A “maioria” faz sentido apenas no contexto de uma igreja visível e reconhecível.

5. Observa-se ainda 1Timóteo 5 uma lista de viúvas que eram mantidas nas igrejas primitivas: “Não seja inscrita senão viúva que conte ao menos sessenta anos de idade, tenha sido esposa de um só marido”. (v.9). Fazer uma lista de pessoas e estas serem mantidas só faz sentido dentro do contexto de uma igreja local, organizada e visível.

HERESIA 11: A Bíblia não é a Palavra de Deus.

Por influência das críticas que os teólogos liberais fizeram a Bíblia Sagrada os “desigrejados” fazem coro com os neoliberais. O artigo da revista Defesa da Fé é bem contextualizado com o que dizem os “desigrejados” contra as instituições evangélicas: “Os liberais acusam os evangélicos de transformar a Bíblia em ‘um papa de papel’, ou seja, em um ídolo. Com isso, culpam os evangélicos de ‘bibliolatria’”. (RAPHAEL, 2004).

Para eles, a Bíblia não é a Palavra de Deus, apenas contém. Influenciados por escritos de Rudolf Bultmann, creem que muito do que se tem no Novo Testamento é “proclamação” da Instituição nos séculos seguintes a era apostólica. São também, influenciados pelo pensamento neo-ortodoxo criado por Karl Barth.

O liberalismo teológico classificava a Bíblia como um livro qualquer. Karl Barth, em vez de ser apologista da ortodoxia, que declarava e declara que a Bíblia é a Palavra de Deus, classificou-a como um livro que contém a Palavra de Deus. Diante dos liberais que negavam a inspiração da Bíblia, titubeou. De seu pensamento, vive muitos “desigrejados”.

Falando sobre a Acomodação e renovação do protestantismo, no seguinte livro (Almeida, 1993. P.242) aborda a influência do pensamento Karl Barth até mesmo dentro da igreja evangélica, isto é, entre os “igrejados”:

A nova ortodoxia, liderada por Karl Barth (1886-1968) que embora faça uma tentativa de retorno às Escrituras, acaba postulando que a Bíblia não é a Palavra de Deus; apenas a contém. A nova ortodoxia, também conhecida por novo liberalismo e a teologia transcendental, acaba por afirmar que o Deus do Antigo Testamento foi somente um deus tribal; que o texto bíblico é apenas a forma em que certos homens exprimiram suas experiências; que Cristo morreu a morte de um mártir e não uma morte substitutiva, etc.

É lamentável que muitos pastores e membros “igrejados” estejam em comum acordo com “desigrejados” nessa questão sobre a simpatia com Karl Barth, o pai da nova ortodoxia. Existem frases que ele pronunciou que precisam ser aqui citadas para servir de alerta a muitos cristãos desavisados:

[…] um teólogo que parecia um apologista cristão contra o liberalismo teológico, mas, na verdade, suas “refutações” dissolveram-se em mera diplomacia. Em sua famosa obra “Carta aos Romanos”, Barth manifestou a sua negação ao liberalismo teológico, mas também sua repulsa a ortodoxia (11), pois não foi enfático quanto à ressurreição histórica de Jesus: “Deixou para trás a morte! ‘Ressuscitado de entre os mortos, ele já não morre mais’. Precisamente porque a sua ressurreição não é um acontecimento histórico, não é material”. (12). E também disse: “a ressurreição toca a história como uma tangente toca um círculo, isto é, sem realmente tocá-lo” (13). O mesmo desacreditava na inerrância da Bíblia: “De capa a capa palavras humanas e falíveis […] Segundo o testemunho das Escrituras sobre os homens, que também se refere a eles (isto é, aos profetas e apóstolos), eles podiam errar, e também têm errado, em toda palavra […] mas precisamente com essa palavra humana falível e errada pronunciaram a palavra de Deus”. (14). (DURAND, 2016).

Quando chegamos à teologia neo-ortodoxa (raiz da teologia contemporânea), escrevendo sobre os conceitos teológicos de Barth, Raimundo de Oliveira (1997. P.133) diz: Segundo Barth, o pecado pertence à natureza do homem como um ser criado. Desse modo, na qualidade de homem, até mesmo nosso Senhor Jesus Cristo foi carne pecaminosa […] Barth fala de perdão de pecado, mas “perdão” não significa para ele, que o homem seja transformado e se torne uma nova criatura. Pare ele, tudo quanto é criado é pecaminoso […] Segundo Barth, “o pecado habitou, habita e habitará no corpo mortal enquanto o tempo for tempo, o homem for homem e o mundo for mundo”. Não vemos esperança de real salvação para os neomordenistas. (DURAND, 2014).

Para Barth a “escatologia nada tem a ver com o futuro, e que a segunda vinda de Cristo não é nenhum acontecimento futuro. Ensina que esperar pela vinda do Senhor é tornar a nossa situação real tão ansiosamente como ela realmente é”. Escreve Raimundo de Oliveira (idem). Por isso Barth vai dizer: Não é o RETORNO GLORIOSO que tarda, mas o nosso despertamento. Se acordássemos, se nos recordássemos, se completássemos o passo que vai do tempo não qualificado ao tempo qualificado, se nos assustássemos por estarmos a todo momento, (quer queiramos quer não) no ponto limite extremo, à beira do INSTANTE [que pode ser o do retorno glorioso de Jesus Cristo]; se, estando nesse limite, ousássemos amar o “DESCONHECIDO”, se reconhecêssemos e apreendêssemos o princípio do fim, então verdadeiramente, nem esperaríamos esse “fim do mundo” resplandecente ou catastrófico [fazendo coro] com os mais excitados [emotivos ou neuróticos] nem

acompanharíamos a piedade (ou a religiosidade) da inabalável [racional e não emotiva] cultura protestante, consolada com o FIM que não vem. (2008. P.767). (DURAND, 2017).

Esses falsos ensinos têm sido muito bem refutado por muitos escritores e teólogos em livros e muitos textos na internet. O texto que escreveu o apóstolo Paulo é bem claro: “Porquanto, tudo que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que, pela constância e pela consolação, provenientes das Escrituras, tenhamos esperança”. (Rm.15.4). Respondendo ao pensamento influenciado pela teologia liberal de que a Bíblia foi confeccionada em séculos posteriores ao IV d.C. gostaria de fazer algumas citações:

Os quatro evangelhos do Novo Testamento foram atestados muito antes de Constantino e Niceia. Vemos a antiga atestação dos quatro evangelhos canônicos de Mateus, Lucas e João em diversos escritos antigos. O Cânon Muratotiano […] descoberto em 1740 […] É a cópia de um documento datado por volta do final do século II. As primeiras linhas estão faltando, mas o texto diz: ‘O terceiro livro do evangelho é o de segundo Lucas […] O quarto evangelho é o de João, um dos discípulos. Nomeia […] quatro evangelhos […]. Irineu, Pai da Igreja, fez um extenso estudo sobre a razão de haver quatro evangelhos […] escritos cristãos primitivos que atestam, citam ou fazem alusões aos evangelhos incluem-se Orígenes, Homilia sobre Lucas (185-254 d.C.), a Epístola de Barnabé (c.70-79), Marcião (c. 140). as epístolas de Inácio (c. 110-117) e Clemente de Roma, Epístola aos Coríntios (c. 95-97). (HOWE, 2013. P.292).

Ao contrário de outros livros sagrados do mundo antigo, a Bíblia não se concentra em heróis lendários ou míticos (Como Aquiles, Gilgamesh, Krishna), mas nos personagens humanos reais que vivem no espaço-tempo real, que lutam em batalhas históricas e que interagem com reinos reais […] Embora os estudiosos liberais e os céticos seculares continuem a acusar a Bíblia de não ser histórica, a crítica deles é falha, porque se baseia e é conduzida por uma hipótese a priori não comprovada: milagres não acontecem. A maioria dos estudiosos liberais não parte de uma busca indutiva pela verdade, e sim de um preconceito, sem fundamento contra o sobrenatural. Tais estudiosos partem do pressuposto de que, se um relato da Bíblia apresenta um milagre, ele não pode ser histórico. Ao fazer isso, no entanto, eles levantam a questão da autoridade bíblica, que está fundamentada não somente nos milagres específicos que cercam os ministérios de Moisés, Josué, Elias e Jesus, mas […] Um procedimento adequado e imparcial provaria que, como a Bíblia demonstra ser exata em seus mínimos detalhes, há boas razões para acreditar […] as partes importantes dos Evangelhos e das Epístolas remontam a 200 d.C., com fragmentos do Evangelho de João […] datando cerca de 100 d.C. […] se reunirmos as Epístolas e sermões de pais da igreja como Clemente, Inácio e Justino Mártir, que citam a Bíblia extensivamente, poderemos reconstruir quase todo o Novo Testamento. (Markos, 2013. P.174, 177, 178, 181).

Além do que vimos até aqui, posso lhe provar dentro da Bíblia a comprovação histórica de que o Antigo Testamento já tinha seu texto reconhecido pelos judeus e constantemente citado por Jesus e epístolas de Paulo já circulavam nas igrejas cristãs. O apóstolo Pedro cita as epístolas de Paulo como Escrituras (grego: graphas). Atestando as epístolas paulinas como Palavra de Deus:

“e tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor, como igualmente o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada, ao falar acerca destes assuntos, como, de fato, costuma fazer em todas as suas epístolas, nas quais há certas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as demais Escrituras, para a própria destruição deles.” (2 Pedro 3:15-16).

O mesmo Paulo, tendo o seu texto reconhecido como Escrituras (graphas) ou Escritura (graphe) ele escreve sobre as mesmas:

“Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça,” (2 Timóteo 3:16). O apóstolo Paulo, considerava que todo o Antigo Testamento já estava formado e, circulando no século I d.C., ele considerava tudo quanto era chamado de Escritura ou Escrituras na época como textos inspirados por Deus. Ou seja, Palavra de Deus.

Ele considerava a Escritura preexistente no coração de Deus, como Palavra eterna de Deus: “Porque a Escritura diz a Faraó: Para isto mesmo te levantei, para mostrar em ti o meu poder e para que o meu nome seja anunciado por toda a terra.” (Romanos 9:17 RA). Veja bem, ele não disse que Deus falou a Faraó, mas a Escritura!

O próprio Jesus Cristo falou:

“A seguir, Jesus lhes disse: São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco: importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. Então, lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras;” (Lucas 24:44-45. O grinfo é nosso). Veja que na época de Cristo, já havia a composição do Antigo Testamento, e esta era chamada de Escrituras (graphas). Atualmente conhecemos como Tanach ou Tanak (a Bíblia Judaica ou Hebraica) que, com suas três consoantes (TNC) formam a mesma composição que Cristo havia mencionado. Conforme o cânone judaico:

T – Torah, que corresponde a Lei, conhecida nos volumes da Bíblia Cristã como Pentateuco. Os cinco livros de Moisés.

N – Neviym, que corresponde aos Profetas, livros que equivalem aos volumes da Bíblia Cristã conhecidas como Proféticos e alguns dos Históricos.

Ch – Chetuvim, (outros chamam Ketuvim, devido a consoante hebraica inicial não vir com o dagueshlene em alguns textos) que são os Escritos, corresponde ao livro de Salmos, citado por Jesus, por ser um primeiro livro na sequência deste último volume do Antigo Testamento. Livros que equivalem em sua maioria aos volumes da Bíblia Cristã conhecidas como Poéticos e alguns

Proféticos e Históricos.

Jesus Cristo chamou a Torah de Palavra de Deus quando Mateus e Marcos narram o debate de Jesus com os fariseus sobre a tradição dos anciãos:

“invalidando a palavra de Deus pela vossa própria tradição, que vós mesmos transmitistes; e fazeis muitas outras coisas semelhantes.” (Marcos 7:13). Note que no verso 10 ele cita Moisés, isto é, uma metonímia da Torah.

O apóstolo Pedro considerava que todas as profecias das Escrituras foram pronunciadas por homens santos movidos pelo Espírito:

“sabendo, primeiramente, isto: que nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens [santos] falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo.” (2 Pedro 1:20-21).

Jesus deixou claro que seus primeiros discípulos receberiam novas mensagens dele além da que havia lhes falado e que constaram nos Evangelhos, atestando assim a inspiração das epístolas gerais. E que também o Espírito os guiaria a toda verdade, um prenúncio do livro de Atos dos Apóstolos:

“Tenho ainda muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora; quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão de vir.” (João 16:12-13).

Jesus deixou a figura de retórica do enigma. Marcando um encontro dele com o apóstolo João, sobrevivente do martírio, atestando a inspiração do Apocalipse e a autoria do mesmo:

“Em verdade, em verdade te digo que, quando eras mais moço, tu te cingias a ti mesmo e andavas por onde querias; quando, porém, fores velho, estenderás as mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não queres. Disse isto para significar com que gênero de morte Pedro havia de glorificar a Deus. Depois de assim falar, acrescentou-lhe: Segue-me. Então, Pedro, voltando-se, viu que também o ia seguindo o discípulo a quem Jesus amava, […] Vendo-o, pois, Pedro perguntou a Jesus: E quanto a este? Respondeu-lhe Jesus: Se eu quero que ele permaneça até que eu venha, que te importa? Quanto a ti, segue-me. Então, se tornou corrente entre os irmãos o dito de que aquele discípulo não morreria. Ora, Jesus não dissera que tal discípulo não morreria, mas: Se eu quero que ele permaneça até que eu venha, que te importa?” (João 21:18-23 RA).

Finalmente, a epístola aos Hebreus: “Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo.” (Hebreus 1:1-2). O autor desta epístola considerava que Deus havia falado pelos profetas. Uma metonímia dos Profetas, a segunda composição dos volumes da Tanach. Texto correlato: “Respondeu Abraão: Eles têm Moisés e os Profetas; ouçam-nos.” (Lucas 16:29). Isto é, Lei e Profetas. E também o autor desta epístola reconhecia que Deus havia falado pelo Filho. Uma metonímia dos Evangelhos. Primeira composição do Novo Testamento. Boas novas ou notícias, composta de uma narrativa da vida, mensagem, ações, morte e ressurreição de Jesus. (J. Strong).

Portanto, considerando tudo o que já disse aqui, a Bíblia completa não é um livro formulado ou criado pela igreja do século IV d.C. Ela já tinha sua composição formada e já circulava na igreja cristã do século I d.C., E eram acreditadas como Palavra de Deus, inspiradas por Deus, seus autores foram movidos pelo Espírito, falaram de Cristo, receberam palavras de Cristo, registraram as palavras de Cristo, e receberam posteriormente pelo Espírito, as demais mensagens de Cristo, constadas em suas epístolas.

HERESIA 10: Antinomismo.

Os “desigrejados” são avessos a Lei; evidentemente ao Velho Testamento. O que prova serem seguidores do antinomismo. Heresia muito bem definida no comentário do blog Comunidade Wesleyana:

O Antinomismo (gr. Anti=contra; Nomos=lei, literalmente contra a Lei ou contra o sistema da Lei) é uma das heresias mais antigas da História da Igreja. Já aparece no gnosticismo helenizado de Marcião que negava qualquer importância real e espiritual ao Antigo Testamento, e, por conseguinte desde a Lei até os profetas, mas especialmente a primeira que era considerada irrelevante e sem mais importância a partir de Cristo, por meio do qual fora estabelecida uma nova relação com os homens […] O Antinomismo, portanto, não só rejeita a Lei, mas não vê para essa lei qualquer significação nos dias de hoje, seja do ponto de vista da fé ou mesmo da ética. (OLIVEIRA, 2009).

Muitos evangélicos, influenciados por alguns fatores, deixaram de dar a devida importância a Lei de Deus. Acredita-se que um deles foi a ênfase da Reforma Protestante no que se diz respeito à doutrina da graça divina. Essa questão foi tão evidenciada que se deixou de se reconhecer a importância da Lei do Senhor.

Outros fatores que também contribuíram foram: a aversão ao tão prejudicial legalismo (salvação pelas obras), que era e é muito prejudicial; e o costume de se vincular de maneira simplista a Lei ao Velho Testamento e a Graça ao Novo Testamento. Nenhum dos extremos é conclusivo, pois a Lei e a Graça atuam em toda a Bíblia.

De Gênesis a Apocalipse a Bíblia apresenta a Lei e a Graça divina harmonizando-se e contextualizando-se com as duas alianças. A Lei no que diz respeito a santificação do cristão. A graça procedendo com a justificação por Cristo. “Aqui está a perseverança dos santos, os que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus”. (Ap.14.12).

A Lei foi abolida?

O texto que levanta uma possível resposta positiva é este: “Portanto, por um lado, se revoga a anterior ordenança, por causa de sua fraqueza e inutilidade (pois a lei nunca aperfeiçoou coisa alguma), e, por outro lado, se introduz esperança superior, pela qual nos chegamos a Deus”. (Hb.7.18,19 grifo nosso).

Entretanto, há duas respostas baseadas nesse texto: Sim – Quanto a sua eficácia de salvar o pecador a Lei foi revogada ou ab-rogada. Porém, Não – Quanto a sua capacidade de instruir, corrigir e disciplinar o cristão a Lei continua com a sua validade. Pois a Lei é nada mais nada menos do que a vontade de Deus para os homens. Essa vontade divina está expressa em toda Bíblia para vários objetivos, conforme Paulo apresenta: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça”. (2Tm.3.16).

Vive-se hoje debaixo da Lei?

Sim – Porquanto continua sendo a soma dos deveres e obrigações de cada cristão para com Deus e seu próximo. Sim – Porquanto representa o caminho traçado para a santificação da igreja (cf. Hb.12.14). Não – Quando o fiel acha que é salvo por meio de obediência aos mandamentos (cf.Ef.2.8,9). Não – Porquanto representa os mandamentos civis, religiosos ou cerimoniais de Israel. Creio que por isso existem passagens com afirmações pejorativas sobre a Lei:

“Todos quantos, pois, são das obras da lei estão debaixo de maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no Livro da lei, para praticá-las.” (Gálatas 3:10).

“tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz;” (Colossenses 2:14).

A Lei de Deus presente na Bíblia é classificada em: Lei Universal e Lei Local. A Lei Universal (conhecida também como Lei Moral) é a vontade de Deus descentralizada de um povo específico, dirigida para todos os povos, línguas e culturas. A Lei Local (conhecida também como Lei Cerimonial ou Civil) é a vontade de Deus centralizada, dirigida para uma comunidade, nação ou cultura específica. Baseada em cerimônias e simbolismos judaicos. Exemplo: circuncisão, sábado, sacrifícios de animais, dízimo, etc. Que também envolve a lei civil da nação de Israel, de seu cidadão.

A Igreja que prioriza a suprema autoridade das Escrituras, sempre apresentará uma Teologia moderada que busca o equilíbrio nessas e em outras questões bíblicas. O apego à Lei divina na busca de méritos para a salvação conduz à queda no legalismo. Pregar uma Graça em desarmonia com a Lei conduz à queda no antinomismo. Por isso, o Catecismo maior de Westminster ensina na resposta da questão 97 que:

Embora os que são regenerados e crentes em Cristo sejam libertados da lei moral, como pacto de obras, de modo que nem são justificados nem condenados por ela, contudo, além da utilidade geral desta lei comum a eles e a todos os homens, é ela de utilidade especial para lhes mostrar quanto devem a Cristo por cumpri-la e sofrer a maldição dela, em lugar e para o bem deles; e assim provocá-los a uma gratidão maior, e a manifestar esta gratidão por maior cuidado da sua parte em conformarem-se a esta lei, como regra de sua obediência. (2002).

Portanto, é descabido o desprezo por parte dos “desigrejados” à Lei divina. Pois esta Lei no que tange sua natureza moral tem serventia para a santificação, todavia não para a justificação. Pois Cristo é quem nos justifica por meio da sua própria justiça (Rm.5.19). Respeitando o conteúdo cerimonial e civil como fruto de um cuidado e preservação da nação que viria o salvador do mundo.

HERESIA 12: Negação do dízimo.

O assunto dízimo realmente é o que mais incomoda um “desigrejado”. Acredita-se que seja pelos abusos das instituições eclesiásticas de linha neopentecostal como também pelo coração avarento dos próprios críticos e por beligerância pelo fim das denominações cristãs. Por isso, para os “desigrejados”, qualquer sistema de contribuição com a instituição religiosa é visto com antipatia, pois são esses recursos que mantêm a instituição eclesiástica.

Em que implica afirmar que o dízimo é uma prática do Antigo Testamento? O casamento era prática do Antigo ou do Novo Testamento? O culto? O congregar? O grande problema dos “desigrejados” é sua repulsa total ao Antigo pacto sob a alegação de que estão em uma Nova Aliança. Não digo aqui que o dízimo deva ser praticado como está na Lei. Eu me refiro na perspetiva de “contribuição” para com o ministério eclesiástico, para a prática da mordomia cristã. O reconhecimento de que Deus é o dono de todas as coisas e somos os seus mordomos. Nesta particularidade, o dízimo, tem um efeito aplicativo a todos nós que não pode ser negado.

Os “desigrejados” esquecem: dos princípios, dos mandamentos universais e das verdades práticas contidas no Antigo Testamento que não morrem junto com a abolição da Lei. A Bíblia afirma que: “Toda Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça”. (2Tm.3.16 perdoe-me a repetição deste verso). Anula esta declaração bíblica quem afirma que não se podem tirar todos estes proveitos do Antigo Testamento. Esta verdade é confirmada nesta outra passagem bíblica: “Pois tudo quanto, outrora, foi escrito para o nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança.” (Romanos 15:4). Aqui Paulo faz menção clara ao Antigo Testamento. Pedro escreveu: “sabendo, primeiramente, isto: que nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens [santos] falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo.” (2 Pedro 1:20-21). O autor aos Hebreus disse: “Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo.” (Hebreus 1:1-2).

Agora, deixe-me expor meu texto conclusivo sobre uma longa jornada apologética de textos que escrevi na internet em relação ao dízimo. Vou colocar aqui o último texto meu até a presente data que aborda o assunto, sob o tema: Dízimo, Uma Posição Bíblica e Equilibrada (DURAND. 2016).

Este texto tem por objetivo dirimir a problemática em torno do dízimo. O blog Anti-heresias tem procurado ao longo dos anos fazer uma apologia ao referido tema sob a perspectiva denominacional e dogmática; usando apenas a hermenêutica gramatical e teológica, sem, todavia, ir mais fundo na hermenêutica histórica/cultural. E quando decidi assim fazer, cheguei a assunto abaixo discorrido. Sei que muitos colegas pastores e líderes não vão apreciar totalmente o teor desse material, mas tenho o compromisso com as Escrituras. E disso não posso abrir mão, pois, embora seja um assunto secundário, as trevas da ignorância necessitam da luz da Palavra de Deus. E se posso fazer isso, eu não privarei aos necessitados a sua exposição.

O dízimo não deve passar de uma designação, uma metonímia de contribuição que devemos dar na igreja local. O que passar disso mergulhará num pântano sombrio da dispensação da Lei, onde quem não obedecia vinha sobre ele maldições (Ver Dt.28.15-45) e quem obedecia vinha as bênçãos. (ver Dt.18.2-13). É sob este contexto que as palavras do profeta Malaquias 3.8-12 ressoam: “Roubará o homem a Deus? Todavia, vós me roubais e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas. Com maldição sois amaldiçoados, porque a mim me roubais, vós, a nação toda. Trazei todos os dízimos à casa do Tesouro, para que haja mantimento na minha casa; e provai-me nisto, diz o SENHOR dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu e não derramar sobre vós bênção sem medida. Por vossa causa, repreenderei o devorador, para que não vos consuma o fruto da terra; a vossa vide no campo não será estéril, diz o SENHOR dos Exércitos. Todas as nações vos chamarão felizes, porque vós sereis uma terra deleitosa, diz o SENHOR dos Exércitos”. Com isso, não damos conta ao fato de que, fora Jesus (Rm.5.19), ninguém foi cumpridor da lei (1Rs.8.46; 2Cr.6.36; Sl.14.1-3; Ec.7.20; Is.64.6; 1Jo.1.8; Rm.3.9, 10,23; Jo.8.7; Tg.3.2). Por isso o apóstolo Paulo escreve: “Todos quantos, pois, são das obras da lei estão debaixo de maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no Livro da lei, para praticá-las”. (Gl.3.10).

Utilizar o dízimo com toda a bagagem e contexto do Antigo Testamento vai dar uma confusão enorme, é retroceder ao velho pacto, é decair da graça (Gl.5.4). E entrará em contradição com a dispensação da graça do Novo Testamento (Ef.2.8,9; Rm.11.6; 1Co.15.10). Que não começa pelo evangelho de Mateus, o Novo Testamento começa a partir do grito na cruz: “está consumado” (Jo.19.30). Tudo o que Mateus, Marcos, Lucas e João narram sobre a biografia de Jesus está no contexto da velha aliança. Paulo lança luz sobre as trevas de nossa ignorância: “vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei”. (Gl.4.4). Jesus nasceu e viveu sob o regime da lei, e veio para cumprir a mesma: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir”. (Mt.5.17). Portanto, qualquer citação dentro dos evangelhos sobre “dízimo” ainda estará no contexto da velha aliança e era associado ao judaísmo e não ao cristianismo. Exemplo disso também: o sábado, a circuncisão, os holocaustos e sacrifícios, o sacerdócio, etc. O silêncio dos demais livros do Novo Testamento sobre o dízimo na igreja primitiva é relativo ao contexto histórico/cultural. É inevitável a conclusão de que o dízimo era dado no templo judeu por eles (caso fossem agropecuaristas), quer fossem judeus tradicionais ou fossem judeus cristãos. Todas as obras do Novo Testamento datam a época anterior ao ano 70 d.C. (ano da destruição do templo), exceto o Apocalipse de João. E foi desde a sua origem até o referido ano em que o dízimo era dado no templo judeu. Por isso não vemos nenhum dos apóstolos pedirem o dízimo para a igreja cristã. Todavia, existia uma forma de contribuição, de servir com bens, donativos (do grego: diakoneo). Pois havia na igreja primitiva uma organização financeira que desde os tempos em que Jesus esteve com eles. Confira as seguintes passagens e logo perceberá que uma forma de contribuição paralela ao dízimo judaico era praticada pelos cristãos primitivos: Lucas 8.1-3; João 12.6; 13.29; Atos 4.34,35; 6.1; 1Timóteo 5.16-18; 2Coríntios 9.5-13. Percebemos nestas passagens que desde o ministério terreno de Jesus até a igreja primitiva havia uma contribuição paralela ao dízimo judaico que supria as necessidades da igreja cristã onde tinham destinos claros: o sustento do ministro, ajuda aos pobres, ajuda aos irmãos necessitados da igreja e as viúvas. Quando a igreja cristã saiu das sombras do judaísmo, pois até o ano 70 d.C., era considerada como uma seita do judaísmo, então as contribuições arrecadadas foram se estendendo para cobrir gastos no envio de missionários, construções de capelas, e demais gastos que existem hoje. Embora fossem fortemente combatidos pelos imperadores romanos, onde as capelas eram destruídas e muitos cristãos foram mortos, ainda assim, a igreja cristã subsistiu em catacumbas, reuniões nos lares, salões secretos alugados, até o ano 313 d.C., quando o imperador Constantino emitiu o edito de tolerância. Depois disto, a igreja cristã passou a ser uma religião autorizada pelo império podendo fazer suas atividades livremente.

Que fique claro isso: no tempo da igreja primitiva não havia a dádiva do “dízimo” para a igreja cristã, mas ao templo judeu, por judeus cristãos agropecuaristas (os gentios cristãos ficaram desobrigados – At.15.28,29), dentro do contexto judaico e não se confundia com a dádiva de contribuição do ministério terreno de Jesus e nem da igreja cristã primitiva – onde todos participavam (cristãos judeus e gentios).

O termo “dízimo” veio a ser associado à igreja cristã a partir do século IV d.C. nas chamadas “Constituições Apostólicas” (citado na obra de David A. Croteau: “uma desconstrução do dízimo e uma reconstrução da doação pós-dízimo”, p.16). Sendo anteriormente mencionado por Cipriano (200 – 258 d.C.), todavia ele exortou a igreja a contribuir “como se fosse” o dízimo (a título de comparação) e não que como indicação de que os cristãos cumprissem literalmente semelhante à dádiva do Antigo Testamento (idem p.15). Cipriano acreditava que o dízimo (10%) era o mínimo do que deveria se contribuir voluntariamente para a igreja local. Trabalhando a consciência do cristão de participar das despesas da igreja cristã e não de se omitir diante destas.

Portanto, que todos nós possamos ser contribuintes fiéis voluntariamente e por gratidão a Deus, sem o peso da dispensação da lei e comprometidos com as despesas de nossas congregações. Não se importando com o uso da designação (dízimo, oferta, donativo, contribuição), mas com a necessidade da igreja local. Sendo gratos a Deus pelo que ele já nos tem dado. Não estimulando aos

congregados a barganharem com Deus ou impondo-lhes a cultura do medo sob ameaças de maldição ou acusando-os de ladrões. Trazendo-lhes um falso evangelho, focado em méritos humanos e não na graça divina. É neste contexto que o apóstolo Paulo escreveu aos Gálatas que, em seu primeiro capítulo, foi bem contundente: “Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema”. (Gl.1.8). Sentimentos refutados pelas Escrituras: “Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído?” (Rm.11.35). “Quem primeiro me deu a mim, para que eu haja de retribuir-lhe? Pois o que está debaixo de todos os céus é meu”. (Jó 41.11). “No amor não existe medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo. Ora, o medo produz tormento; logo, aquele que teme não é aperfeiçoado no amor”. (1Jo.4.18). “Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica”. (Rm.8.33). “… porque Deus ama a quem dá com alegria”. (2Co.9.7b). Atitudes reprováveis daqueles que se dizem “pastores”, “bispos”, “presbíteros”, cognomes que classificam como autoridades constituídas pelo Espírito Santo (At.20.28) para “pastorear” o rebanho e não fazê-las se perverterem em sentimentos pecaminosos, doentios e de medo. Devemos trabalhar sentimentos dignos do novo pacto: amor, gratidão, doação, mordomia, generosidade, alegria, para que venham contribuir por motivações santas. O apóstolo Pedro exorta a liderança da igreja cristã:

“Rogo, pois, aos presbíteros que há entre vós, eu, presbítero como eles, e testemunha dos sofrimentos de Cristo, e ainda coparticipante da glória que há de ser revelada: pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho. Ora, logo que o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a imarcescível coroa da glória”. (1Pe.5.1-4).

Portanto, os “desigrejados” e muitos “igrejados” não sabem ao certo o que envolve o tema. Assim, ambos acabam se equivocando sobre o dízimo. Isso por uma eclesiologia mal construída. Onde foi formada pela teologia sistemática em solo mais cheio de dogma e tradição do que de doutrina bíblica.

Se lhe convier, o dízimo pode e deve ser chamado de “donativo, contribuição” ou algo parecido. Pois, percebemos que tal palavra ficou pejorativa e atrelada a toda uma carga veterotestamentária, cultural e histórica que é digna de atenção e cuidado.

HERESIA 13: Fiéis, em vez de sustentar igreja rica com 10% doe para os pobres.

Essa frase é típica do “desigrejado” que não aceita nenhum comprometimento com a instituição eclesiástica. O dízimo, embora que visto de forma distorcida como instrumento de barganha por muitos “igrejados”, principalmente os de denominações neopentecostais, deve ser entregue na congregação a título de comparativo ao dízimo veterotestamentário, desassociado ao cerimonialismo da Lei. E fincado nas raízes da igreja primitiva. Cabe a igreja, em sua representação na liderança, dar seu destino: social, evangelístico, no sustento do líder, se for de tempo integral, para manutenção do prédio, contas a pagar, etc. Tudo com a devida aprovação anual de todos os seus fiéis em uma Assembleia Geral Ordinária. Os pobres sempre devem estar nos projetos sociais da igreja. Entretanto, a igreja não deve virar uma ONG.

HERESIA 14: A igreja sou eu.

Esse argumento parece ser uma bela frase cristã. Mas, na verdade, é uma antítese da palavra “igreja”. Enquanto que “igreja” expressa uma coletividade, a palavra “eu” (ego) expressa um exclusivismo do indivíduo. O termo “igreja” veio a ser usado no Novo Testamento para associar a antiga congregação (ajuntamento) de Israel, com o advento de Cristo, ela tornou-se mais ampla do

que o ajuntamento de uma nação, sendo desde então o ajuntamento dos povos do mundo inteiro. A palavra grega “ekklesia” foi adotada pelos escritores do Novo Testamento por ser mais adequada ao ajuntamento do povo de Deus sem o particularismo nacional de Israel que no hebraico usava-se “qahal” ou “iedah”. Embora a palavra “ekklesia” conste na Septuaginta, a mais comum usada para a nação como povo de Deus ficou “sunagoge”. Vejamos a seguinte passagem: “Então, Moisés pronunciou, integralmente, as palavras deste cântico aos ouvidos de toda a congregação de Israel:” (Deuteronômio 31:30). É importante observar que a tradução “congregação” do hebraico “qahal” na Septuaginta aparece como “ekklesias”.

HERESIA 15: Meu pastor é Jesus.

Essa frase tem uma afirmação verdadeira, porém, não é toda a verdade. É semelhante a alguém que testemunha perante um juiz diante do tribunal, mas omite dizer “toda a verdade”. De fato Jesus é o nosso pastor. Conforme ele mesmo assim se declara: “Eu sou o bom pastor; o bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas”. (Jo.10.11a). Mas Jesus está afirmando aqui que não existem pastores ou líderes para a igreja de Cristo? Não! Jesus cumpre aqui à profecia de Ezequiel 34. No verso 23 Deus fala: “E suscitarei sobre elas um só pastor para apascentá-las. O meu servo Davi. Ele as apascentará, e lhes servirá de pastor”.

Todos os profetas, reis e sacerdotes se encerram em Jesus Cristo, todavia, Ele subindo aos céus, deixou líderes para que cuidassem de sua igreja até a sua volta. O Novo Testamento apresenta esta verdade com o próprio Jesus comissionando a Pedro: “Apascenta as minhas ovelhas”. (Jo.21.17). Depois, observa-se que o próprio Pedro chama Jesus de “sumo Pastor” (1Pe.5.4), colocando-se ele mesmo como “pastor” e diante do contexto, também como “presbítero” (idem v.1). Jesus torna-se assim o pastor dos pastores.

Observa-se posteriormente os presbíteros serem chamados de bispos e convocados a pastorear o rebanho de Deus (cf. At.20.17,28). O apóstolo Paulo relata que Jesus na sua subida aos céus delega lideranças à igreja escrevendo: “subiu às alturas […] e concedeu dons aos homens […] E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres”. (Ef.4.8b,11). Em Filipenses 1.1 deixa claro a presença de presbíteros e diáconos nas igrejas locais que Paulo menciona. Onde o mesmo fala para Tito designar presbíteros (Tf.3.5). Percebe-se claramente por meio de todos estes textos que há sim uma autoridade delegada por Jesus aos líderes cristãos. E cada cristão que deseja submeter-se à Cristo, deve submissão aos líderes que ele constituiu. Não ficar debaixo de uma liderança cristã alegando que “meu pastor é Jesus” é um ato de insubmissão ao próprio Deus, pois ele enviou Jesus como autoridade delegada. Jesus faz o mesmo aos seus líderes delegados. Um ato que conduz à reflexão nas palavras do Mestre: “Quem vos recebe, a mim me recebe; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou”. (Mt.10.40).

HERESIA 165: Sair da religião.

Sair da religião usando o texto “Eu ouvi outra voz do céu, que dizia: Sai dela povo meu”. (Ap. 18.4) é a proposta mais clara dos “desigrejados”. Entretanto, associar este versículo a toda instituição eclesiástica é um tipo de generalização doentia. Os “desigrejados”, de forma imatura e beligerante, veem todas as instituições como pervertidas. Um fruto óbvio da ignorância.

A Bíblia ensina: “Não julgueis pela aparência, mas julgai segundo o reto juízo”. (Jo.7.24). Essa passagem mostra que os “desigrejados” cometem um erro simples de julgamento que os conduz a juízos tortos. Será que não existe um remanescente das congregações, das instituições eclesiásticas? É no mínimo muito precipitado responder negativamente a esse questionamento.

HERESIA 17: O cristão não precisa se sujeitar a culto enfadonho e ritualístico.

João Batista não queria batizar Jesus, mas o próprio Cristo submeteu-se ao ato afirmando: “Deixa por enquanto, porque, assim, nos convém cumprir toda a justiça. Então, ele o admitiu.”. (Mt.3.15b). Se Jesus se submeteu a um ritual, com que autoridade um “desigrejado” ensina que esta ou aquela liturgia deve ser rejeitada? Não que se concorde com qualquer ritual, mas, infelizmente, muitos perdem a oportunidade de exercitar a renúncia, submissão, celebração e a paciência. Lembrando sempre que “Obedecer regras, ritos ou ordens não é um peso para um discípulo de Jesus, mas uma identificação com ele”.

HERESIA 18: Os líderes e autoridades da igreja são pais de família – homens maduros na fé e na idade (presbíteros) e não clérigos profissionais.

Essa frase pertence ao movimento de desigrejados conhecido como igreja orgânica. Obviamente, o uso que se faz na expressão “clérigos profissionais” é um diagnóstico equivocado de um líder cristão eclesiástico. Embora existam lideranças que se encaixam neste pejorativo, não é sábia e nem honesta a prática de se tentar generalizar este conceito estendendo o mesmo a todos os líderes de denominações cristãs. As pessoas são vocacionadas por Deus, onde muitos, deixaram suas profissões, talentos profissionais etc, para atender esse chamado. Como que são taxados assim de “clérigos profissionais”? Toda generalização precede a insensatez!

A Bíblia porventura afirma que a maturidade do líder deve ser aferida por sua idade? O termo grego

“presbuteros” (no português: presbítero) não se remete estritamente ao “ancião” como alguém de idade avançada, muito pelo contrário, rsta palavra se refere a um líder maduro na fé. A palavra grega que aponta para um velho de idade avançada é “presbutes” ou “geron”. E estas palavras não estão presentes nos versículos do Novo Testamento onde falam dos presbíteros da igreja. Encontramos na Bíblia “presbutes” ou “geron” quando se quer falar de homens maduros na idade, literalmente “velhos” ou “homem idoso”. Exemplo:

“Então, perguntou Zacarias ao anjo: Como saberei isto? Pois eu sou velho [presbutes], e minha mulher, avançada em dias.” (Lucas 1:18).

“prefiro, todavia, solicitar em nome do amor, sendo o que sou, Paulo, o velho [presbutes] e, agora, até prisioneiro de Cristo Jesus;” (Filemon 1:9).

“Perguntou-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho [geron]? Pode, porventura, voltar ao ventre materno e nascer segunda vez?” (João 3:4).

As vezes “presbuteros” se refere na Bíblia a homens maduros não exatamente velhos ou idosos. Pode também designar “ancião líder” como se usa na Septuaginta aos líderes da congregação (sunagoge) de Israel, entretanto, a mesma usa “geron” para “ancião” no modo comum do termo. Mas usar a palavra presbítero na linguagem neotestamentária desassociada da igreja local, da “ekklesia”, conforme já mostrei aqui nesta obra, colocando-a como um mero chefe de família de uma reunião de pequeno grupo? É um absurdo. Seria o mesmo que desassociar o ancião líder da congregação (sunagoge) de Israel. Os “desigrejados” confundem os termos “geron” com “presbuteros” no contexto religioso em seus argumentos contrários a hierarquias religiosas da igreja local, organizada. Vejamos no léxico grego a definição da palavra “presbuteros”:

Comparativo de presbus (de idade avançada). 1) ancião, de idade. 2) designativo de posto ou ofício. 2b) entre os cristãos, aqueles que presidiam as assembleias (ou igrejas). O NT usa o termo bispo, ancião e presbítero de modo permutável. (Strong. 2002).

HERESIA 19: A Hierarquia é uma coisa estranha na igreja. Uma aberração.

Essa citação é feita por desigrejados pertencentes ao movimento igreja neotestamentária. Eles prosseguem: “Ela foi copiada dos romanos e inserida na igreja, no quarto século. Já na segunda metade do Século II, percebe-se, pelas cartas patrícias, as influências da civilização Greco-romana na organização da igreja. A igreja tem somente um cabeça – Jesus Cristo. Os homens e mulheres são membros do Corpo”.

É fato inconteste que Jesus sempre será o cabeça da igreja. Mas, como afirma o apóstolo Pedro, Jesus é o “sumo Pastor” (cf. 1Pe.5.4) e, obviamente, existem os pastores que estão debaixo da autoridade de Cristo, os quais foram constituídos pelo Espírito Santo (cf. At.20.28). Tudo em conformidade com os padrões estabelecidos nas cartas paulinas (cf. 1Tm.3.1-7 e Tt.1.5-9). Aberração é esse tipo de heresia que estão propagando pela internet.

HERESIA 20: O Novo Testamento nos foi dado como diretriz para a igreja em todos os tempos.

Citação feita por desigrejados pertencentes ao movimento igreja neotestamentária. E eles prosseguem: “A igreja de hoje não pode descartar as práticas e a vida da igreja neotestamentária, como se fossem coisas do passado”.

A igreja primitiva não é o modelo “final” de uma igreja cristã. Ela estava em sua forma “embrionária” que precisava crescer, se expandir e se organizar. Não se deve “descartar” a igreja primitiva, mas também não se pode seguir uma eclesiologia com base na fase infante da igreja. Ignorar o contexto histórico/cultural da igreja primitiva é um erro grave dos formadores de opinião pertencentes ao movimento dos “desigrejados”. Esta postura equivocada do texto bíblico precisa ser contestada:

O cristianismo até o ano 70 d.C. era considerado pelos romanos (império dominante) como uma facção do judaísmo. Onde concedia aos judeus uma liberdade de culto que aos cristãos nem se cogitava. Os próprios cristãos primitivos, em sua maioria judeus conversos ao evangelho, não tinham uma noção da grandeza e da expansão da fé cristã pelo mundo. Só depois do concílio de Jerusalém aproximadamente no ano 50 d.C. foi que através de Paulo e Barnabé, em suas viagens missionárias, a fé cristã começou a se expandir por nações gentílicas (cf. At.15.1-22). Por isso, focavam-se em evangelizar os judeus e se reunirem no Templo em Jerusalém e não tinham projeto algum de construções de prédios cristãos para reuniões de adoração. O próprio Paulo, em suas viagens missionárias, passava sempre pelas sinagogas e comunidades judaicas dispersas em cidades gentílicas.

HERESIA 21: A discriminação das denominações cristãs.

Veja o texto enviado a mim por uma pessoa pertencente ao movimento dos desigrejados:

Com que autoridade bíblica “escolhemos” estes nomes (ex.: batista, presbiteriano, pentecostal, etc.)? Os cristãos eram chamados simplesmente cristãos (pelos outros) ou “irmãos” pelo próprio Senhor. Com que autoridade bíblica colocou-se nomes de homens nestes grupos (Luterana, Metodista, Wesleyana)? 1 Cor. condena dizer: Sou de Paulo, sou de Cefas, etc. Com que autoridade bíblica estabeleceu-se essas igrejas segundo diferenças nacionais? (ex. Igreja Grega Ortodoxa, Igreja de Cristo Pentecostal do Brasil, etc.). Com que autoridade bíblica chamou-se edifícios de “igreja” quando esta palavra (ekklesia) significa simplesmente reunião ou ajuntamento de pessoas? Com que autoridade bíblica chamou-se esses edifícios de “templos” quando sabemos que Deus só reconheceu o templo de Jerusalém, e hoje o templo somos nós, pessoas, individual e coletivamente?Com que autoridade bíblica tem cultos de adoração previamente ensaiados, até mesmo com programas impressos, se encontramos em 1Coríntios 14, total liberdade do Espírito para escolher a quem Ele quer para o que Ele determinar? Que autoridade bíblica (lembre-se, estamos no NT.) temos para ter o louvor efetuado por um coral, e não por toda a congregação, e para a introdução de bandas, conjuntos, cantores profissionais fazendo da reunião mais um espetáculo para a plateia? Que autoridade bíblica tem para designar vestes especiais para os que cantam, para os que pregam, etc.? Que autoridade bíblica tem para as irmãs participarem das orações com a cabeça descoberta? Que autoridade bíblica tem para mulheres falarem nas reuniões da igreja? Que autoridade bíblica tem para reuniões dirigidas por um só homem? Que autoridade bíblica tem para homens ordenarem homens, e se temos, por quem foram os primeiros ordenados? Que autoridade bíblica tem para denominar pessoas como ‘‘Reverendo’’, “Pastor”, “Presbítero” nos mesmos moldes do “Doutor” que usamos hoje, ou seja, transformar dons ou ofícios em títulos honoríficos? (Você sabia que na Bíblia inglesa diz que Reverendo é Deus?). Que autoridade bíblica tem para designar um pastor para uma assembleia local quando o dom de pastor é um dom dado universalmente à Igreja? Que autoridade bíblica tem para, como Igreja, observar dias “santos” ou especiais, como páscoa, natal, etc.? Que autoridade bíblica tem, na doutrina dada à Igreja, para a prática do dizimo? Que autoridade bíblica tem para solicitar contribuições de visitantes e pessoas não salvas? Que autoridade bíblica tem para instituir diplomas e certificados de pastores, ou mesmo dar títulos como “Doutor em Divindade” a irmãos que deveriam ser iguais aos outros? Que autoridade bíblica tem para considerar a Igreja como uma instituição que ensina. Costumamos ouvir “nossa Igreja ensina isto ou aquilo”?

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O argumento do silêncio que fundamenta alguns dos questionamentos acima não é tão perfeito. Em alguns casos realmente esse argumento é categórico. Enquanto em outros casos ele é descabido. Uma análise mais detalhada da questão apresenta suas fragilidades contextuais. Estas fragilidades tornam-se mais claras nas argumentações que começam com a frase “que autoridade bíblica”. É óbvio que o uso da autoridade bíblica sempre será bem-vindo, afinal, o cristão crê que a Bíblia é a Palavra de Deus e o ponto final em questão de religião, fé e doutrina. Entretanto, o mau uso da autoridade bíblica poderá engessar a vida prática da igreja, bem como congelar a mente das pessoas impedindo-as de refletirem e fazerem teologia nas questões não fundamentais da fé cristã. Diante deste quadro torna-se salutar a reflexão em alguns questionamentos: é fundamento de fé cristã considerar a igreja como uma instituição que ensina? É fundamento de fé cristã dar títulos aos irmãos em Cristo que estudam mais um pouco as Escrituras, a revelação de Deus, e exercem liderança sobre os demais? É fundamento de fé cristã a prática do dízimo? Óbvio que “dízimo”, sem o contexto veterotestamentário, é uma metonímia da contribuição que se dar na igreja local atualmente. São fundamentos de fé cristã as questões acima? Como as pessoas seguem uma linha de raciocínio tão frágil e descabida de lógica e ainda formulam questionamentos que por si só se respondem? E percebe-se nesta linha uma carga de revolta contra a instituição eclesiástica maior que os argumentos apresentados. Nota-se como são verdadeiros “espantalhos” tais questionamentos apresentados pelos “desigrejados” que também podem ser aplicados para questionar os ensinamentos do próprio movimento deles: Que autoridade bíblica há para as palavras: “pequenos grupos”, “células” ou “grupos domésticos”? Que autoridade bíblica há para afirmar que a igreja primitiva é o modelo definitivo e final de uma igreja cristã? Que autoridade bíblica tem o “desigrejado” para não se congregar?

Conclui-se que sempre se deve levar em consideração o argumento da autoridade bíblica em questões fundamentais da fé cristã. Quanto aos assuntos periféricos, tão criticados pelos “desigrejados”, como ritos, dogmas e práticas, estes devem ser analisados por uma linha de raciocínio madura levando em conta a importância de cada um e o contexto em que se encontram. O ataque desenfreado a estes assuntos em vez de trazer benefícios práticos à igreja induz ao risco de se adotar uma postura legalista sobre assuntos secundários, quando deveriam dar prioridade aos alicerces da fé. Chama-se na teologia esse tipo de assunto de adiáforo. O fato é que temos aqui uma discriminação clara à denominações cristãs que se organizam e possuem liturgias.

HERESIA 22: Igreja é minha família.

Já ouvi “desigrejados” usarem muito essa frase. Todavia, a palavra “família” quando empregada na linguagem do Novo Testamento, no contexto de igreja, ela vai entrar em conflito exegético. Vejamos:

A palavra grega para igreja é “ekklesia” (como já falamos dezenas de vezes aqui). Já a palavra família é “oikos”. A primeira diz respeito a “reunião de cidadãos chamados para fora de seus lares para algum lugar público, assembleia”. (Strong. 2002). E a segunda diz respeito a “1) casa. 2) ocupantes de uma casa, todas as pessoas que formam uma família, um lar. 3) linhagem, família, descendentes de alguém”. (Strong. 2002). Ora, como conciliar igreja com minha família aqui? Vamos dificultar ainda mais a vida destes “desigrejados”:

“saudai igualmente a igreja [ekklesia] que se reúne na casa [oikos] deles. Saudai meu querido Epêneto, primícias da Ásia para Cristo.” (Romanos 16:5). E agora? Como pode a igreja (ekklesia) estar dentro da casa (família – oikos) de alguém se para alguns “desigrejados” a igreja é a família deles?

Observe o erro aqui: a igreja, do grego “ekklesia” abrange os cristãos reunidos, chamados para uma reunião. Logo não envolve apenas pessoas da mesma família, mas de diversas famílias em um lugar de culto. Assim, dizer que a igreja é minha família é uma heresia. Porque a igreja é uma coletividade mista de famílias, e no seu âmbito global envolve povos, línguas e nações.

Conclusão

Somente na igreja teremos a verdadeira comunhão. Amizade não pode ser definida como comunhão. Qual a diferença de amizade e comunhão? Amizade geralmente se refere a um relacionamento pessoal de afeto, confiança e apoio mútuo entre indivíduos. Comunhão, por outro lado, tende a envolver uma ligação mais profunda e espiritual, frequentemente associada a compartilhar crenças, valores e objetivos comuns dentro de um grupo religioso ou comunitário. Enquanto a amizade é mais pessoal e pode existir entre quaisquer indivíduos, a comunhão muitas vezes tem uma dimensão mais coletiva e espiritual.

Os “desigrejados” pensam que se reunir em um shoping para tomar café, reuniões em lares, ou qualquer aspecto relacional da vida social, tem ligação com ser igreja. Não, a igreja está associada com a comunhão advinda do Espírito de Deus como está na saudação do apóstolo Paulo: “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós”. (2Co.13.14 AR). Como consta no Credo Apostólico: “Creio no Espírito Santo, na santa Igreja cristã, na comunhão dos santos…”. (versão luterana). Uma ligação inseparável! Somente o Espírito de Deus promove a comunhão verdadeira, porque ele transforma as pessoas em novas criaturas e atrai elas a Cristo. Seria como um ímã. Este objeto atrai todos os metais em sua direção e aproxima seus iguais na mesma força atrativa. De modo semelhante precisamos nos converter para que sejamos levados a Cristo e mergulhados na comunhão do Espírito de Deus e evidentemente inseridos na Igreja cristã. Por isso que João escreveu: “mas, se andarmos na luz, como ele na luz está, temos comunhão uns com os outros…”. (1Jo.1.7).

Quando a Bíblia fala da igreja primitiva que: “perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações”. (At.2.42) não está dizendo simplesmente que eles eram grandes amigos. Pois existem grupos de amigos no meio secular que não tem qualquer vínculo espiritual ou religioso com Cristo. O texto aqui está falando de uma irmandade, de uma parceria circundando o fato ocorrido em suas vidas: a transformação e o poder do Espírito de Deus levando-os a Jesus. Que, no terreno da religiosidade, algo semelhante pode até ser produzido. Mas temos por certo que não será advinda do Espírito de Deus, mas do espírito deste mundo, das forças de Satanás. Que imitam a comunhão cristã, a verdadeira comunhão. Tanto que Paulo vai exortar os irmãos em Corinto a se posicionarem sob qual mesa eles vão se sentar: “Não podeis beber do cálice do Senhor e do cálice de demônios; não podeis participar da mesa do Senhor e da mesa de demônios”. (1Co.10.21). Observe que a presente carta tem uma clara advertência do apóstolo Paulo: “Portanto, meus amados, fugi da idolatria”. (idem v.14). Que corresponde a uma relação com ídolos, uma religiosidade e fraternidade ligada a outra comunhão que, por não ser seres verdadeiros, por ocasião da mentira, os próprios demônios ocupam o centro da comunhão e desse culto. Por isso que Paulo fala: “Mas que digo? Que o sacrificado ao ídolo é alguma coisa? Ou que o ídolo é alguma coisa? Antes digo que as coisas que eles sacrificam, sacrificam-nas a demônios, e não a Deus. E não quero que sejais participantes com os demônios”. (idem v.19-20).

O não pertencimento do “desigrejado” a mesa do Senhor, da ceia do Senhor, algo definido por Jesus de forma clara nas Escrituras por ocasião da Páscoa, que continha uma janta, a ceia do Seder (a janta da Páscoa). Já o denuncia como quem está fora do corpo de Cristo. Um estado de desobediência ao imperativo dos verbos “comer, beber e fazer” pronunciados por Jesus naquela janta em que Ele tomou dois elementos do Seder: O Matzá (o pão ázimo) e o Kosher (o vinho ou suco de uva), para fazerem parte de uma Nova Aliança de Deus com os homens. Esse Kosher era servido quatro vezes nessa janta. Jesus tomou o último para anunciar a Nova Aliança. Chamado por Paulo de “cálice da bênção” (1Co.10.16). O quarto cálice bebido no Seder, que era servido após a refeição principal. Que continha a expressão: “Eu os tomarei por meu povo e serei o seu Deus” (ver Êx.6.6-7 as quatro expressões dos quatro cálices).

“Enquanto comiam, Jesus tomou o pão e, abençoando-o, o partiu e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai, comei; isto é o meu corpo. E tomando um cálice, rendeu graças e deu-lhes, dizendo: Bebei dele todos”. (Mt.26.26-27 AR atenção ao grinfo).

“E tomando pão, e havendo dado graças, partiu-o e deu-lhes, dizendo: Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim”. (Lc.22.19 AR atenção ao grinfo).

“Semelhantemente também, depois de cear [grego – deipneo: jantar], tomou o cálice [o 4o kosher], dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim”. (1Co.11.25 AR atenção ao grinfo).

Que Deus traga arrependimento aos corações por tantas heresias disseminadas na igreja criando celeumas e confusão no corpo de Cristo. E que você que está afastado da igreja venha a se reconciliar e retomar a comunhão do povo de Deus numa igreja local.

Fonte: https://anti-heresias.blogspot.com/2024/03/desigrejados-e-suas-heresias.html

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